Meu livro do ano

Que passou. Mas talvez seja deste também, vamos ver. O autor de verdade não é o que aparece na capa. Parece que é uma mulher, formada em biologia, mas que criou o canal no Youtube que cito bastante, recentemente. Havia achado inicialmente que era um caderno de reflexões de alguém da geração “millennial”, o que me fez pensar sobre o que seria uma versão atual do clássico A morre de Ivan Illich. De qualquer modo, prova-se que, para captar um espirito de época (ou do que é ser humano em certos contextos), não é preciso ser jovem ou velho.

Don’t try


if it doesn’t come bursting out of you
in spite of everything,
don’t do it.
unless it comes unasked out of your
heart and your mind and your mouth
and your gut,
don’t do it.
if you have to sit for hours
staring at your computer screen
or hunched over your
typewriter
searching for words,
don’t do it.
if you’re doing it for money or
fame,
don’t do it.
if you’re doing it because you want
women in your bed,
don’t do it.
if you have to sit there and
rewrite it again and again,
don’t do it.
if it’s hard work just thinking about doing it,
don’t do it.
if you’re trying to write like somebody
else,
forget about it.
if you have to wait for it to roar out of
you,
then wait patiently.
if it never does roar out of you,
do something else.

if you first have to read it to your wife
or your girlfriend or your boyfriend
or your parents or to anybody at all,
you’re not ready.

don’t be like so many writers,
don’t be like so many thousands of
people who call themselves writers,
don’t be dull and boring and
pretentious, don’t be consumed with self-
love.
the libraries of the world have
yawned themselves to
sleep
over your kind.
don’t add to that.
don’t do it.
unless it comes out of
your soul like a rocket,
unless being still would
drive you to madness or
suicide or murder,
don’t do it.
unless the sun inside you is
burning your gut,
don’t do it.

when it is truly time,
and if you have been chosen,
it will do it by
itself and it will keep on doing it
until you die or it dies in you.

there is no other way.

and there never was.

O poema acima se chama So You Want To Be A Writer. O autor, Charles Bukowski. Ele escolheu Don’t try para sua lápide. O que ele quis dizer? O poema acima oferece uma pista; e, claro, não se refere apenas a quem quer ser escritor, obviamente. Refere-se ao que queremos para a nossa vida.

Aqui vai uma brilhante interpretação do Don’t try.

https://youtu.be/eMTDAHK-tkE

Meu vídeo top of the year

Liberdade

Uma pessoa pode ter motivação, mas não ter um objetivo a alcançar? Conversando com algumas pessoas, não raro me pego pensando que elas não conseguiriam viver sem um objetivo, mesmo que tal objetivo seja uma tarefa, uma meta de curtíssimo prazo. Se for aquele tipo de pessoa irriquieta, então esta pode contentar-se com “um dia a cada vez”, mas desde que, nesse tal dia, haja algo a realizar, a alcançar. Há, inclusive, aqueles mais sistemáticos que chegam a anotar em agendas e cadernos suas ‘metas’ diárias.

Uma pessoa que não tem objetivo pode experienciar depressão? Bom, pode ser estereótipo, mas deve ter muita gente de ‘papo para o ar’ por aí que não deve ter nenhum problema em ficar na brisa das circunstâncias, especialmente se puder contar com o trabalho de outros. Mas uma pessoa que, como muitas, nasceram e foram educadas em uma cultura orientada por objetivos, sim, provavelmente ela vai se deprimir, e nisto temos a faceta bastante moderna dessa patologia. Nesta faceta, a depressão é uma doença do vazio, da incapacidade ou da impossibilidade psíquica de fluir a vida sem um objetivo. Sem este, a pessoa pode se sentir inútil, imprestável, à deriva. É claro que uma pessoa com muitos objetivos também pode se deprimir, mas aqui se trata de outra faceta da depressão, aquela estudada por filósofos pop como o autor de A sociedade do cansaço (Byung-Chul Han). Sociólogos muito mais sérios já haviam percebido isso faz tempo (por exemplo, Alain Ehrenberg). Aqui, depressão é um tipo de burn-out, um consumo radical da energia vital, e, psicanaliticamente poderíamos acrescentar, uma espécie de válvula de segurança para que o sujeito simplesmente não se dissolva no atendimento do gozo do outro (sobretudo se esse outro for um chefe, uma empresa, um pai ou mãe implacáveis, etc.).

Então, o que nos resta? De um lado, o deprimido sem objetivo; de outro, o deprimido por sobrecarga e estiolamento psíquico. Como separar o joio do trigo? Porque veja, uma pessoa ‘sem objetivo’ e, como tal, simplesmente à deriva, ela está mais longe ou mais perto de seu plano geral no cosmos, por assim dizer (metaforicamente)? Considere ainda o seguinte. Quem disse que perseguir um objetivo é algo, necessária e intrinsecamente, bom? Vamos considerar uma coisa bem simples. Você precisa trabalhar. No trabalho, você traça objetivos em relação à sua carreira (sua experiência com o trabalho no tempo, independente de onde esteja trabalhando no momento), e traça objetivos em relação às tarefas concretas a serem realizadas. Ou segue objetivos traçados por outros, tanto faz para nosso propósito aqui. Então, você recebe seu salário. Aí você compra um carro. Estabelece uma casa, tem uma família. Aí os objetivos começam a se sobrepor e a acumular. Quando você tem um filho, por exemplo, você não conseguirá jamais escapar da força de ter de fazer coisas para ele, sendo que tais coisas sempre serão percebidas por você como a coisa mais sublime e justificada (no amor, na criação, etc.) para enlaçar seus atos, seu tempo, seu trabalho, seu suor, tudo. Sua vida passa a orbitar ao redor do outro que, detalhe, você gerou (pois é mais difícil o mesmo nível de apego quando não se tem o próprio filho; desconheço razões etológicas para isso – podem haver). Sua vida sai de você, e você entende esse gesto como um doar-se, como uma abnegação para que um outro se desenvolva; se você for religioso (mesmo que não pratique religião), então, aí a narrativa estará totalmente armada. Sua vida tem seu eixo fora dela; e, na sua cabeça, isso tem de ser assim mesmo, você sente na carne isso, como não poderia ser? Inclusive, o nível das emoções é tão evidente que todo o conhecimento gerado por esta pessoa sobre sua circunstância e sobre seu estar no mundo (no Cosmos) fica obliterado, ou confundido, embaralhado. E 80 anos passam muito, mas muito, rápido; quando se vê, a vida estará no fim, e a sensação de vida justificada daí se seguirá.

Assim, a certo ponto, ao se deixar levar na ciranda da vida cotidiana, orientada por objetivos, metas, expectativas, foco, coisas importantes, etc., você acaba se enebriando num tipo de pensamento imaginário que se alimenta a si mesmo, e, ao mesmo tempo, suas emoções começam a ser reguladas por esse mesmo imaginário. Ah, vão nos dizer os realistas, esse seu papo aí é coisa de gente que pensa demais; seja uma pessoa prática, pare de questionar, o mundo precisa de gente que arregace as mangas e construa um futuro melhor, etc. É muito difícil, talvez até impossível, ‘discutir’ com quem ‘sente’ as coisas como ‘certas’. Você mesmo pode achar que você está certo; seu pensamento pode estar tão orientado pela imaginação que você não consegue, cognitivamente, abrir algumas portas e considerar outras janelas. Mas o que haveria para além da imaginação?

As causas reais das coisas. Talvez você possa me dizer que isso não existe, afinal, vivemos num “mundo relativista”. Mas existe, sim, um plano além do da imaginação, mas para chegar até ele é preciso usar a razão, a capacidade natural de nossa mente, em seu estado natural, em sua potência natural.

Ao tentar avançar um pouquinho para fora da imaginação, e de suas emoções ou afetos correspondentes (reativos, na maior parte), algo mais ou menos assim ocorre: é como se você estivesse acostumado com as luzes da cidade, à noite; então, quando dirige para o campo, quando as luzes artificiais rareiam, então você se dá conta de que, nossa!, há um céu, há estrelas, e há um infinito em todos os cantos. Este é só um exemplo. Não falo aqui de contemplar a ‘natureza’ (coisa que, em geral, quem diz é quem é rato de cidade), falo em descentralização radical, perspectiva, apercepção de que estamos na Natureza (novamente, não confundir com passarinhos, lagos e lagoas!). Quer outro exemplo similar: você percebe que tem um corpo? Parece boba a pergunta, mas não reaja assim logo de cara. Muitos de nós sequer nos apercebemos como sendo um corpo, na verdade, e que esse corpo é um corpo que faz parte da Natureza – mas ele também, ou sobretudo ele!, foi enredado pelo conhecimento atrelado à imaginação…

É impressionante como o nossa imaginação, turbinada pela sociedade do espetáculo e das telas, nos lança tanta luz (literalmente, no caso das telas), que X passa a produzir X, ou seja, um pensamento leva a outro pensamento, que se “reforça” de modo fictício em outdoors, na boca de outras pessoas (artistas, intelectuais, pastores, padres…), gerando a sensação de realidade. O mesmo pode ocorrer com nossos objetivos: eles podem ser parte de uma trama fictícia – não necessariamente má, em si. Neste momento, por exemplo, há pessoas quebrando a cabeça, verdadeiros “heróis” tentando achar a vacina para o COVID19, para que todos possam retomar suas vidas, uns mais, outros menos. Mas veja que interessante: foram nós, humanos, que, em primeiro lugar, provocamos a própria doença, no sentido de que princípios ecológicos foram corrompidos, permitindo o salto e a circulação humana do vírus. Sempre foi assim: a civilização cresce, interfere na ecologia, provoca uma catástrofe, aí cria seus próprios mecanismos, sofisticadíssimos, diga-se de passagem, para combater algo que ela própria criou. E já pensou na motivação desses cientistas? Se for um norte-americano, então, ele estará simplesmente fascinado e miticamente jubilante por estar “fazendo história”, por estar num dos “maiores países do mundo”, etc., etc., etc. Os EUA são, aliás, a terra da motivação, da orientação por objetivos, do pensamento pragmático, da tecnologia, do dinheiro, da sofisticação inacreditável da espécie humana moderna. Quer dizer, há muita narrativa, muita lenha para a imaginação ali (e, pela via das redes e telas, para todo o resto do mundo…é surreal como todo lugar do mundo discute as eleições americanas e as coisas deles, etc.).

A resposta para a questão acima, sobre se é possível ter motivação sem objetivo, penso eu, tem a ver com nossa concepção de liberdade. É livre quem cresce ouvindo que precisa ser alguém, alcançar objetivos, se tornar um doutor, um empreendedor, etc.? É livre quem, como diria Dejours, “tem motivação”, em vez de desejo? A liberdade humana depende de entendermos as causas, e em nos tornarmos causas de nossas próprias vidas. Tornar-se causa de sua própria vida é descobrir a verdade sobre você, sobre onde você está, sobre quem você é, e sobre os outros. A liberdade consiste em reencontrarmos com nossa própria natureza, que não necessariamente vibra na mesma sintonia que a de outras pessoas. Mas aí finalizo com o seguinte: criamos nossos aparatos imaginativos para justamente evitarmos de nos confrontar com nós mesmos. É um mal necessário, alguém poderia dizer.

Post escrito inspirado em Espinosa.

Você nunca fará algo notável + Você não existe

Incríveis!

Da perspectiva da eternidade

Pensei em Nietzsche e na célebre frase de Marcus Aurelius, algo como: “Logo, esquecerás; logo, todos te esquecerão”.

Sistema operacional

De que você precisa para ‘rodar’ sua vida normalmente, quer dizer, para tocar as suas responsabilidades cotidianas, inclusive as envolvidas em sua sobrevivência? Talvez na resposta a esta questão resida uma linha divisória entre crianças e adultos. Pois a criança se orienta por um tipo muito particular de pensamento mágico, em que as coisas simplesmente acontecem, como num filme da Dysney.

Usemos uma metáfora. Considere um computador que ‘roda’ windows. De que ele necessita para ser ‘operacional’? Ele necessita de um sistema operacional: DOS? Sem algum pacote mínimo de arquivos .dll (não tenho certeza se é isto mesmo, enfim) seu computador não liga, não avança para além daquela tela azul.

Imagine agora que você tenha uma casa. E que você decida mudar, livrando-se de tudo. Então, obviamente, você precisa de outra casa. Você já pensou no quanto sua vida se desorganiza quando você se muda e ‘reseta’ completamente o sistema de memórias ou “caches” que estavam lá armazenadas e que, por se basearem em caminhos repetitivos, simplesmente os memorizava e partia para o resultado desejado? Acho que até crianças vivem isso.

Nietzsche disse algo mais ou menos assim: primeiro, descubra o que você necessita; só então ame o que você necessia. Ou algo assim. Quer dizer, ame apenas aquilo que você realmente precisa para viver. E aqui vai o milagre da coisa toda: não necessariamente é muito. Vamos pensar numa bobagem: você tem a sua cozinha (assumindo que você cozinhe, o que penso ser um aspecto essencial para ser um adulto). Você obviamente gosta de comer um prato X. Mas você já pensou sobre quais objetos você precisa para ‘rodar’ o processo que levará à elaboração desse prato X?

Fiquei pensando sobre isso quando, por razões variadas, tive de mudar, me instalar; mudar de novo e ter de me instalar mais uma vez. Aí vem a questão: preciso comprar coisas. E então: afora o básico (geladeira, fogão, etc.), de que mais eu preciso para ‘rodar’ aspectos até certo ponto rotineiros e básicos ou ‘fundantes’ do meu cotidiano?

E não é tão simples, pois você tem certos hábitos, rituais, manias ou o que quer que seja. Você tinha, digamos, uma cadeira que dava certinho para seus estudos. Uma mesa de trabalho. Então, você está na estaca zero. Aí você se pergunta: bom, vou tentar reconstruir o que eu tinha, como se estivesse visceralmente agarrado àquilo, ou vou experimentar coisas novas, eventualmente descobrindo novos gostos, prazeres, e eventualmente rotinas?

Outro filósofo, Heidegger, ao discutir a tecnologia ou o mundo dos objetos, destacava que não nos damos conta dos objetos cotidianos que estão sempre aí, à mão; só percebemos o quanto dele dependíamos quando eles quebram ou…nós nos mudamos, vendemos ou damos tudo, e então ficamos ‘soltos’, por assim dizer, na vida cotidiana. Sim, nossa vida é o cotidiano!

Então, volto à questão: qual seu ‘sistema operacional básico’? Vou dar um exemplo. Sei que é bobo, mas, como talvez tudo que pertença ao cotidiano, assim seja: panela. Talvez você possa dizer que isso é sinal de que já virei o triângulo das bermudas entre a adolescência (óbvio, tenho 44), do jovem adulto (óbvio, tenho 44), e já entrando na ‘velhice’, quando certas coisas por detrás das cortinas começam a ser muito importantes para determinar sua ‘qualidade de vida’ (terrível expressão, mas vamos dizer que ajude por simplificar). Então, se eu não tenho minhas panelas, poxa, a coisa complica. Outro exemplo: travesseiros (um grande, um médio, um pequeno – ok, aqui já me entreguei e agora você sabe que posso ser um obsessivo, rs.). Pilha para o mouse do computador. Lixo para a pia da cozinha (você acha que um adolescente se preocuparia com isso?).

Mas a lista se expande, incluindo outras coisas. Como disse, nada muito complexo, mas sim estratégico. Então, quando você se muda, muda, muda., você começa a se perguntar: estava eu muito preso a uma rotina de ‘velho’ e por demais habituado a ela, fazendo dela minha ‘zona de conforto’? Esta é uma questão. A outra é: pelos objetos de que necessito, tipo de moradia, etc., eu posso descobrir muitas coisas sobre mim mesmo, sobre minha personalidade, minha ‘classe social’, etc. Este é outro ponto. E tem por fim a necessidade de uma lista: o que preciso comprar, onde, quanto vai custar, etc. Alguém fez isso por mim no passado (remoto: minha mãe; menos remoto: minha ex-mulher). No mais, ao vivermos vamos acumulando coisas, e tais coisas, que podiam ter sido adquiridas aleatoriamente no início, se encaixam num certo ritual, e então, quando tiradas de você, você nota que está de novo ‘in the wild’.

Eu sei que, afora tudo isso, em algum nível eu busco me justificar, para não fazer ‘o que eu tenho de fazer’ (meus projetos “transcendentes”, etc.). Se falta um lixo de cozinha, não consigo me concentrar em meus projetos transcendentes. Fuga? Ou uma brecha de meu inconsciente a me mostrar que, no fundo, não há projeto transcendente coisa alguma, e que o importante é garantir algum conforto psicológico e físico com um lixo de cozinha? A pensar.

Um comentário final aleatório, na verdade uma lembrança: estava eu num vôo. Momento do embarque, malas, etc. Chega uma moça atrasada. E procura lugar para colocar sua mala, encontra, senta-se, totalmente esbarofida, a meu lado. Problema: deu-se conta de que havia perdido uma pulserinha de prata. Grita para a irmã na fileira da frente: você pegou minha pulseira? E, durante quase todo o vôo de 3h ela fica inquieta. Disponho-me a ajudar a procurar: talvez tenha caído no assoalho da poltrona de trás? Não teria colocado em outra bagagem? Não teria derrubado em outro momento? Etc. Não adiantou. Ali, nada mais parecia importar para ela, exceto a possibilidade de ter perdido a pulseirinha. Mesquinharia de não querer perder nada (pois o medo, na verdade o terror, de muita gente é em perder, em sair no prejuízo, em se dar mal até nas coisas mais ridículas), ou o medo de que, ao perder a pulserinha (se é que perdeu), ela perdeu alguma coisa de que nem saiba direito o que seja? Ao aterrizar, ela logo encontra sinal de serviço de telefonia, e telefona para seu marido, namorado, não sei: não prestei atenção no que ela disse, só flagei o nome do contato: baby boy. Estaríamos todos viajando, com essa sensação de terror ao ‘perder’ algo, e, assim que o sinal nos conecta novamente a uma ‘rede’, nos lançamos ávidos para falar, nos conectar, com um ser que, por razões variadas, é o depositário de nossa ilusão (Freud), isto é, nosso ‘porto seguro’ que nos acalma pela pulseira perdida? A pulseira…apenas um ícone de algo muito maior, muito mais profundo.

2020, EUA; 2022, Brazil

Quando losers e suckers são mandados para o último estágio de suas atuações, quando a comédia estava a um ponto de virar drama. Figurinhas sem alma, manipuladores sem compaixão, mentirosos com hálito podre. O melhor lugar para essas aberrações, sem dúvida, é dentro de um foguete, pode ser da SpaceX, indo feliz e irreversível para o infinito, onde estarão condenados ao inferno que é suas bocas falantes, cansativas, postulentas. Mas o pior está aí: são os pequenos, os mesquinhos e os seres sem almas (“Almas mortas”) que dão a esses indivíduos a impressão de que são grandes e importantes. Até porque, as massas se orientam por paixões. E, por mais que haja romantismo, o fato é que as pessoas são mais simples do que supomos em nossos modelos ou teorizações sobre “subjetividade”, etc. As pessoas operam com base em pouca informação correta, o que abre espaço para preenchimentos emocionais, e emoções podem se desconectar da racionalidade. Pois, no fundo, a racionalidade e algo chato (por exemplo, nos debates presidenciais americanos, um candidato, por exemplo Lincoln, falava 7 horas seguidas, expondo ideias etc). Na sociedade do espetáculo, o que conta é a performance emocional. Esses líderes, como o laranja ponder que caiu da árvore tarde, são rabiscos em um quadro negro do demônio, o cínico por excelência, a inteligência a serviço de um único objetivo: aproveitar, lucrar (com almas, dinheiro, importância, etc.) com as lacunas profundas da existência.