Experimentos mentais, 1: a bala

Crédito da imagem: aqui

Estavam bem no momento de transição entre a noite fria e a manhã ainda em compactos de neblina. O comum entre eles era que ambos estavam na floresta. A diferença entre ambos é que um tinha um revólver e o outro tinha um crânio prestes a ser perfurado. Mas a diferença mais radical entre ambos era que um teria um dia (talvez semanas, anos) a mais para se perceber como pessoa no mundo, e o outro não tinha mais do que alguns poucos minutos. De fato, mal esse pensamento se formou e logo ele estava de joelhos, costas voltadas contra o outro, nuca contra o cano da arma. Ele poderia estar com os olhos abertos, ou poderia estar com os olhos fechados. Qual maneira seria melhor de terminar? Com os olhos abertos, a última lembrança seria a da floresta: a imagem de árvores, folhas, um verde transitando para o azul infinito do céu, novamente sendo aspergido de luz pelo sol. De olhos abertos, talvez ele ficasse simplesmente mesmerizado, como se estivesse num navio, olhando por uma janela, e vendo uma ilha passar, antes de rumar novamente para o infinito do mar. Com os olhos fechados, poderia ver aquele ponto vermelho formado quando a luz atravessa a pele que cobre os olhos, refletindo nos minúsculos capilares, irrigando tudo de vermelho. Se está vermelho, pensaria ele, então ele ainda estava vivo. Com os olhos fechados, talvez predominassem as lembranças de seu passado, suas memórias. Mas ainda havia seu corpo. Ele poderia, seja com olhos abertos ou fechados, sentir a neblina pela última vez, ou pela primeira vez, tão distante tinha estado de simplesmente sentir as coisas a seu redor, como costumava fazer na infância. A bala atravessa seu crânio, desarranjando tudo que encontra pelo caminho, cortando pele, osso, membranas, primeiro dizimando sua capacidade de ver (lobo ocipital), depois destruindo toda a misteriosa e complexa arquitetura do órgão supremo, seus ventrículos, suas dobras, as fibras que encabeiam e conectam toda a estrutura e suas partes, sua intrincada rede de vazos, finalmente saindo pela frente, obliterando para sempre seu senso de self, sua capacidade de pensar e se separar do mundo, mesmo nunca deixando o mundo. A descrição foi em câmera lenta, como se a bala fosse passando de compartimento em compartimento, como alguém saindo de um cômodo da casa para outro, apagando as luzes no caminho. Na verdade, tudo se apagou num instante de uma violência atroz e estúpida. Um pedaço de chumbo e um pedaço de carne envolta num casulo calcificado. A partir desse momento, nada mais importa para esse ex-ser. Toda a beleza, todo o potencial de descobertas, toda a curiosidade permanentemente insuflada pelos enigmas do mundo desaparecem por completo. O tempo, para esse ex-ser, não tem mais nenhum sentido. O tempo continuará a ser o que sempre foi e será: infinito. Não há mais nenhum plano, como se ele estivesse vendo as imagens formadas por um drone se movimentando ao redor do eixo de seu corpo, registrando de cima. Não. Isso é coisa para o cinema. O cinema não existiria se não houvesse essa ilusão, essa ilusão de um olho que a todo momento precisa estar vendo alguma coisa. O cinema e sua dependência do olho jamais será capaz de penetrar na escuridão de um cérebro destroçado. E, por conseguinte, os telespectadores jamais serão capazes de parar de enxergar e, por fim, como sempre ocorre, parar de sonambularem, pulando de imagem em imagem. Sonhamos, sonhamos e sonhamos. Nenhuma bala será capaz de interromper esse delírio.

What is important?

Do you really know what is important in life? Life itself? Beloved Ones? Health? Wealth? Knowledge? Vanity? Self? The body itself (as Schopenhauer once [indirectly] said)? What about career (of course, a successful one [joking])?

What if … some ‘futile’ detail is, in fact, something of paramount importance to you? I couldn’t, unfortunately, explain to you exactly what I’m thinking. I have the image, but I am not able to convey it in language (at least, not easily).

Ok, that doesn’t make sense. After all, if I have a blog, it is because I think I should materialize my ideas in this tiny post, right?

Well, yes. So, here you go: to grasp what is really important, you, paradoxically, has to go beyond your own [fantastic] self. Yes, the self is pure (necessary) illusion: time within brackets. It appears to me that the only thing that really matters is the “body” [by contrast to self-as-an-imaginary-instance] and, by consequence, the ‘here-and-now’.

Yeap. Whenever we, by means of your ‘mind’ (its power), transcend the actual life we’re having, then we are losing ground, and reaching, so to speak, the helm of the imaginary, the domain of what should be important (or should have been important [as fantasy]).

Two days ago my oldest dog had a collapse. I thought she had passed away. At that very moment, I had no ideas or images in my mind, only her (supposedly) dead body. At that exact moment, that body was the only thing really important, material, to me. Everything else, all the illusions of my self, were sent to the back of my mind. All of the sudden, they stop tormenting me. Do you see? The “événement” – something like “the event”. It took my breath away. The self, in that particular, singular and irreversible moment, was nothing. Three or so minutes later, my dog “came back to life”. I had no idea she was having ‘only’ a collapse (she has an early heart failure insufficiency), and not going to die. Then, life went back to its track, but this episode led me to think about what is important in life…


Six nonsensical and extemporaneous assertions

1. Speaking English is a sign of ‘intelligence’? Don’t be an idiot. This is only a question of where you’ve born. “English native speakers” are such a regular person as you.

2. You have a body, right? Of course, you have. Ok, so let’s take a geographic perspective. The ground is the reference point, ok? Then, from bottom-up, we have, (1) shit (your stomach and so forth), and … (2) your brain.

3. Around one “smart guy” (basically, someone that has managed to deal with valuable symbolical resources, because he or she is a professional hoax), there are always a lot of other “small guys” trying to benefit or be as “smart” as their “master.” As Rorty once said: only one or two are really innovative (intellectually speaking). The rest is only trying to copy and find some justification to fill the space between their foot and their brain (I mean: that thick layer of shit).

4. What if the cynism was the best (or the only) way to deal with the nonsensical conditions of modern (and, especially, academic) life?

5. Your life would be completely different if you could listen to music, take wine and, then (and only then), was able to use what is located above the shit-deposit I’ve mentioned before (of course, doing everything at once). The “raw” life is too much tough and meaningless to support.

6. Marx, I bet, is laughing in his grave. Because we think we are free spirits walking around the world. When you come to realize that you only need to render account to those who pays your bills, your feeling of being free (or captive) would much be more realistic.

***Final remark: we speak more than we should. Have you already realized how noisily the world is? I´m doing my part…


Plastic is, probably, one of the most ingenious discoveries of our advanced, scientific and industrial era. We depend heavily on plastic to the well-functioning of our daily life – a toothpaste tube, a medicine bottle, all the pieces that compound the computer I’m now using to type this post, plastic bags we use to pack our stuff – there are so many applications to plastic-made objects that would be hard to sum up here. In a word: I can’t imagine our life without plastic.

But is well-known that plastic can be, at the same time, one of the worst enemies of nature. Plastic is difficult to degrade. And if we add to this characteristic the fact people are sometimes irresponsible in the way they throw out their no more useful plastic objects, then we can imagine the problem. Indeed, each year, tons of plastic debris are simply dumped into the ocean – the natural habitat of many species of seabirds.

One of these birds is the Laysan albatrosses. What a gracious creature!

These birds have a long wingspan, and they fly vast distances without flapping their wings. They can also spend years without touching land, living for more than half century. As if were not enough all the threats we human beings are causing to their environment (breaking the balance of their habitats), now they face a new menace: tons and tons of plastic that are dropped into the ocean every year. The problem? A recent study shows that this plastic is confused as their natural prey. This happens due to a chemical process that misleads these birds – the plastic debris generates a dimethyl sulfide signature that is the same trace these birds use to identify their ‘food.’ The result: they swallow this debris and then…. they die as a consequence. The photographer Chris Jordan has captured this tragic outcome in images like the next one.


I know. I know. While this is happening, you are concerned with your life. What is the value of the Albatrosses’ life? Your son is infinitely more important. The paper I’m struggling to publish right now is more important. Even what I’m going to eat next is more important. Who, in the so-called “First World” is concerned with the destiny of the plastic waste they produce? Most of the people have a shit for that. And so we in the “developing countries”.

Uma brevíssima nota sobre a culpa

Por que sentimos culpa? Um primeiro motivo é porque, num determinado curso de ação, não fomos capazes de gerar um desfecho esperado. Sentimos culpa, nesse caso, porque imaginávamos que pudéssemos ter agido diferentemente. Um segundo motivo é porque uma determinada coisa aconteceu devido à nossa responsabilidade, ou então, inversamente, à nossa omissão (o que, na prática, dá no mesmo).

Em ambos os casos, a culpa está relacionada ao ‘eu’, mais precisamente, a certa onipotência desse eu. Pois a culpa surge do sentimento de que ou o eu deveria ter agido de um modo diferente, ou simplesmente não ter agido, isto é, não ter feito o que fez.

Muitas vezes, o que mais deseja o culpado é voltar atrás. Ele deseja, em sua imaginação, ser capaz de reverter a passagem do tempo. Ele deseja voltar no tempo nos instantes que precedem o acontecimento pelo qual se sente responsável. Não aceita, no fundo, que o acontecimento seja irreversível. Aliás, é precisamente essa irreversibilidade que paralisa e, por assim dizer, congela a alma culpada. E, da culpa, nasce o desejo de reparação ou de expiação.

Mas o que flagela o culpado é a singularidade do fato causador. Tal fato, mesmo que fosse reparado, não seria apagado. Existe uma radicalidade ‘realista’ na culpa, quando, é claro, ela derive de uma ação feita ou de uma omissão (neste caso, trata-se de ação da mesma forma, embora passiva, pois algo, efetivamente, acontece, mesmo que – ou graças – às expensas do sujeito). Não é possível reverter, não é possível colocar um fato Y no lugar de um fato X. Não vai ser da mesma forma, jamais.

O culpado recebe uma espécie de ‘estigma’. A marca do que fez sempre continuará em suas mãos, mesmo que cicatrize.

Acredito que um dos mais poderosos, senão o único, remédio para a culpa é o esquecimento, embora ele não ocorra da mesma forma para quem é o culpado e para quem foi objeto da ação desse culpado. Mas, sem o esquecimento, nem um nem o outro conseguirão seguir adiante.

Além (ou aquém) da linguagem

Uma vez eu já tinha pensado sobre isso, mas, agora, esse pensamento ganhou outros contornos. Pensei uma vez que o símbolo, ou o simbolismo, ou a linguagem e tudo o que dela deriva, poderiam ser, em alguma medida, um imenso engodo.

Por algo que me aconteceu hoje, e por algum motivo, voltei a pensar nisso. Só que num turbilhão mental caótico. Voltei a pensar, e, de certo modo, a sentir, que nossas construções linguísticas, embora a essência do que nos definem como humanos, podem ser um imenso, brutal, decisivo, erro, engano.

Eu sei que a linguagem, base de qualquer conhecimento, é o que nos permite agir sobre esse mundo, comportamentalmente. É nossa principal ferramenta de sobrevivência. Mas ela gera, à nossa frente, uma redoma de fantasias, imaginação, perversidade, surrealismo, e mentira.

Não, não estamos seguros no reino da linguagem. Ao mesmo tempo, verdade cruelmente paradoxal, é nossa única morada, nosso único retorno. Haveria pensamento sem linguagem? Haveria pensamento sem linguagem? Não conheço nada de neuropsicologia, mas, no meu conhecimento raso e infantil, o pensamento é mais do que linguagem, e talvez aí resida nossa última esperança.

Pois somos serezinhos que precisamos ir trabalhar para pegar o dinheiro, comer e se proteger. Somos serezinhos que, conforme a quantidade desse dinheiro, vamos escravizando outras pessoas (ou sendo por elas, disfarçadamente, escravizados), e vamos nos chafurdando nessa lama chamada cultura, mundo simbólico, mundo imaginário.

Tudo isso é uma tremenda bobagem. Tudo isso, embora necessário (não temos para onde fugir), é uma escatológica mentira. Não adianta gritar, não adianta ficar esperando Deus emitir algum sinal, não adianta nada disso. Há, apesar de nosso conhecimento científico, um automatismo nas leis que regem esse mundo e os corpos vivos aqui presentes. Essas leis, por mais que os cretinos dos pós-modernistas digam que não, são leis necessárias, leis que eles, na sua pretensa sabedoria de “domadores do discurso”, ignoram, ou, pior, temem – e temem de um jeito que nem eles saberiam dizer.

Diante do grito, diante do grito infantil (que seja!), “Não morra”, não há nada o que fazer. Depois de um certo ponto, não há retorno. Depois de um certo ponto, cessa o simbólico; este deixa de dizer algo, este deixa de existir. Depois de certo ponto, só existe uma coisa: um ser imbecil, dotado de linguagem, tentando, por vezes com conversinha auto-enganatória sofisticada, dar conta do que não é possível dar conta, exceto esquecer.

Nesse sentido, assumo minha parte de culpa: na psicologia, sobretudo na psicologia com pé no simbólico, contribuímos para criar nossos próprios falsos problemas. A vida é simples; ela se reduz a poucas leis – das quais temos imenso conhecimento, é fato, mas nem por isso deixam de ser ‘menos leis’ e menos indiferentes à nossa provisória existência.

Aos românticos, meu abraço – vocês sabem sonhar e se auto-enganar!


If you decide to try raising a baby bird yourself, here’s what you’re in for: nestling must be fed every 14-­20 minutes from sunrise to sunset – an adult robin makes about 400 trips every day to feed its young. If the nestling is a few days old, it will take several weeks before it can be released. Adult birds teach their young where to look for food and how to avoid predators – things impossible for humans to do. You will need to provide a proper diet, clean suitable living quarters, and fresh water every day. Still, despite your best efforts, most hand-raised birds will die. This is the fate of most young birds in the natural world, where 90-95% perish before they’re old enough to breed themselves.


Investir no mundo

Admito que, muitas vezes, neste blog, acabo sendo solipsista. Como sujeito histórico (portanto, em parte, isso que vou falar não depende de minha única constituição particular, interior), sou um sujeito com um projeto de eu. Em outras palavras, meu eu é uma questão recorrente para mim, pois me penso como indivíduo.Como sujeito histórico, vivo em uma cultura e numa subjetividade ‘individualista’ (a palavra não é das melhores, mas, em seu sentido antropológico, tem lá seu valor). Não haveria de ser diferente eu pensar em mim, nos meus projetos, nas minhas metas e objetivos, no meu prazer e satisfação, e assim por diante.

Isso para dizer que, em grande medida, escrevo aqui para mim mesmo. E, nesse escrever, reflito sobre temas solipsistas, temas que, alusivamente, eu associaria aos temas que, no século dezenove, se veio a conhecer como ‘literatura de coração’, uma literatura burguesa, vitoriana, voltada às classes médias em ascenção ou mesmo a certa aristocracia em mudança. Uma literatura especular, voltada ao serviço de refletir os novos valores e temores de uma classe/geração para ela mesma. Solipsismo de classe, digamos.

Como sujeito histórico, e isso vai soar como uma contradição, não conheço a história. E, por não conhecê-la, certamente a repito como farsa – ao menos, em alguma medida. Não conhecer a história, como um amigo disse esses dias, é o primeiro passo (senão a base) para a auto-promoção, ou, o que é pior (ou dá no mesmo), para um giro de 360 graus em torno de si mesmo. Solipsismo. Não conhecer a história nos joga na grande massa dos facilmente manipulados, em geral, pelo consumo (pois não há nada mais doce e sedutor do que essa forma de manipulação, ao menos na modernidade ocidental).

Tudo isso também para discutir um tema. Um tema que, no meu vago conhecimento de algumas personagens filosóficas, foi um tema Schopenhauer-Nietzsche. O tema do ‘investimento no mundo’. O que nos move a investir no mundo, em vez de, por exemplo, ficar na cama dormindo, ou, pior, ficar no mencionado giro de 360 graus, anti-produtivo, meramente especular (a própria imagem refletida no espelho centenas e centenas de vezes, não levando a nada – pelo menos não no curto prazo e no plano objetivo)? Como ‘sair de si’, deixar o solipsismo?

Schopenhauer, e vou fazer aqui uma mega-simplificação, talvez pudesse dizer que não vale a pena investirmos no mundo porque, independente do que fizermos, vamos sentir dor, vamos fracassar, vamos morrer. Além disso, não haveria, nesse mundo, uma utopia tão forte ao ponto de nos movermos, coletivamente (!) para alcançá-la, com promessas de vida melhor e digna para todos (ideia [romântica ou idealista?] de ‘humanidade’). Não haveria, ao nível ontológico, qualquer diferença entre pegar o ônibus de manhã para ir trabalhar para trazer comida para casa e o movimento cego, cansativo, de um passarinho fazendo muitas vezes um mesmo trajeto diário para trazer comida a seus filhotes (atenção: voltarei a isso, e então você vai entender).

Nietzsche, de cuja filosofia conheço menos que a do seu ‘inspirateur‘, em contrario, disse que deveríamos investir no mundo como forma de dar seguimento à nossa ‘vontade de poder’, ou simplesmente à nossa potência. Gente como Schopenhauer, diria (ou realmente disse) Nietzsche, é ‘negadora da vida’. Recua ante à afirmação da potência de viver. A questão, e aí as pernas não me ajudam, é em que base Nietzsche coloca a potência. Potência de quê, para quê? Para Schopenhauer, a vontade (potência?) era cega. Não visa nada, exceto manter-se – sendo, pois, uma poderosa força de conservação.

Seja como for, eis que chegamos a um ponto importante, relativo, no plano ético-moral, ao porquê da ação. Ao porquê dos projetos que colocamos sobre o mundo. Num ‘horizonte hermenêutico’ iluminista, investimos (como humanidade) em algo porque queremos transformar esse mundo num lugar melhor, mais ‘avançado’ (em todos os sentidos contidos na ideia de ‘progresso’ da razão): para nós, para nossos filhos. Depois de muita decantação histórica, hoje chegamos a uma situação em que responder a isso leva-nos a coisas como: ah, porque preciso sobreviver (por que se trabalha); por que quero ajudar as outras pessoas; porque não há vida após a morte e, então, precisamos aprimorar um projeto imanente, inclusivo, bom para todos (ou que maximize a utilidade para o maior número possível); ou porque existe um outro mundo, e este é nossa ‘responsabilidade’ – precisamos fazer as coisas bem aqui porque Deus nos deixou esse mundo para que dele cuidássemos, co-participando, assim, da construção/manutenção da obra que Ele iniciou; … .

O fato é que, por vezes, mais do que me perguntar, qua adolescente, ‘quem sou eu e para onde vou’ (traduzindo: em que vou investir, o que vou fazer), eu me pergunto sobre o que gira a roda… Olhando as pessoas ao meu redor, todos parecem sugerir que possuem a mínima ideia de para onde estão indo, do porquê estão fazendo o que estão fazendo – por que um vendedor de remédios vende remédio; por que um pequeno comerciante pensa em expandir seus negócios, contraindo dívidas bancárias; por que um aluno senta no banco de uma universidade até o término de seu curso (para se formar e ‘sair para o mundo’); por que sentar e escrever um artigo, tendo antes saído à rua com seu ‘time’ para coletar/produzir/co-produzir dados, etc.


O comentário sobre a ‘mãe-pássaro’ não foi à toda. Estava hoje voltando para casa, e, sem querer, vimos um filhote de pardal, recém-nascido, caído no chão. Perdeu seu ninho (ou foi jogado fora dele por um irmão mais forte, reduzindo as ‘bocas’ e, consequentemente, aumentando a parte da ‘ração’ diária). Certamente morreria.

Aí você pensa: é a ‘lei’ da natureza, não podemos fazer nada. Para piorar, o coitado era um ‘pardal’, e pardais saem aos ladrões em grande quantidade. Se ainda por cima fosse um pássaro ‘nobre’. Então, qual o valor daquela vida? Uma vida invisível, como, aliás, é a vida de milhões de pessoas, trabalhadores em pequenos trabalhos, invisíveis, despossuídos de ideologia, organização ou, simplesmente, de vontade de mudar alguma coisa. Um batalhão que, embora façam parte da mesma matéria de um ‘ser genérico’ (que trabalha) como nós, são muitas vezes tratados como se não ‘valessem nada’ (diz o ‘patrão’: ah, qualquer coisa, arruma outro fácil!).

Então, voltando ao caso do pássaro: levar para casa, cuidar dele, ou deixá-lo entregue à própria sorte? Por que ‘investir’ (no puro e exclusivo sentido psíquico) nele, se seu futuro é incerto, e, na melhor das hipóteses, é ‘só mais uma vida’ de pardal, perdida entre milhares e milhares deles?

Foi aí que, por algum motivo, um motivo que perpassa isso que escrevo, resolvi intervir. Pesquisei sobre o assunto. E estamos tentando mantê-lo vivo, até que, enfim (e se) ele possa ser ‘libertado’ e possa voar. Mas, no contato com a situação, uma sensação estranha: já pensou nas quantidades de viagens diárias da ‘responsável’ por esse pássaro? Li que eles se alimentam a cada 20 ou 30 minutos. E foi daqui, desse fato, que, em retrospectiva, me mobilizei a escrever isto (portanto, só vai fazer sentido o começo pelo final). O ‘trabalho’ cego, a ‘dedicação’ cega do pássaro-provedor … em nome de, simplesmente, colocar mais um pardal na natureza. Genuinamente, um trabalho. Genuinamente, um investimento no mundo, em sentido puramente instintivo, que seja, mas é. A pura reprodução do non-sense, ou do trabalho de Sísifo, uma roda da vida mantida pelo peso dela mesma, por sua própria inércia. Como humano, vendo a situação neste momento, é um tanto quanto ‘a-linguística’. A vida, por si só, humana ou não-humana, parece ser uma ‘coisa em si’ que se basta e se justifica por ela mesma.

Talvez seja um começo, para mim mesmo, de sair do solipsismo, de investir no mundo. O exemplo, repito, é ínfimo, mas é um indício. Termino com um trecho de um poema de Bertolt Brecht, que me caiu nas mãos hoje tão inesperada e caoticamente quanto o pequeno filhote-pássaro.

Se uma criança surge diante de um carro, puxam-na para uma calçada. Não o homem bom, a quem erguem monumentos, faz isso. Qualquer um retira a criança da frente do carro. Mas aqui muitos estão sob o carro, e muitos passam e nada fazem. Seria porque são tantos os que sofrem? Não se deve mais ajudá-los, por serem tantos? Ajudam-nos menos. Também os bons passam, e continuam sendo tão bons como eram antes de passarem.

[A esperança do mundo, B. Brech]

As coisas, as pessoas

As coisas não nos pertencem. À primeira vista, isso poderia soar juridicamente questionável: eu comprei minha casa, ela é minha; comprei uma bicicleta, e ela é minha. O Estado, a polícia (sua maior força física), todo o ordenamento legal atrela uma propriedade a meu nome, à minha pessoa, desde que eu prove que a adquiri licitamente: por meio de meu dinheiro (que, por sua vez, ou é proveniente de alguma renda, propriedade ou, caso mais comum, do meu trabalho). Trabalho, aliás, já foi associado a propriedade (Locke) – isto é, a posse de uma propriedade é estabelecida com base no trabalho sobre ela (no passado, a terra).

Mas há uma ‘corrente’, vamos dizer assim, que afirma que as coisas, exceto, quando muito, nosso próprio corpo, não nos pertencem “at all”. Em geral, vemos isso em algumas doutrinas religiosas. Para o cristianismo, por exemplo, os bens materais são ‘deste mundo’; não podem ser levados ao ‘outro mundo’. De fato, quando morremos, não ‘levamos’ (interessante esse verbo nesse contexto, não?) absolutamente nada. Por um fato simples: pelo fato de que cessamos de existir no exato momento em que morremos, sendo nossas ‘coisas’ (propriedades) transmitidas a quem nos sucedem pelo laço do nome/sobrenome (e pelo ordenamento jurídico).

Em algumas passagens da obra de Schopenhauer este diz, com outro linguajar evidentemente, que a única coisa que ‘nos’ pertence é nosso próprio corpo. Nisso, há certo acordo jurídico: nosso corpo é nosso ‘bem’ indiscutivelmente inalienável. Claro que, em muitos sentidos, nosso corpo é também um corpo social. Por exemplo, quando alguém é condenado pela justiça, o Estado é legalmente (consentimento) autorizado a tomar nosso corpo e prendê-lo por anos. Em alguns países, o Estado vai mais além, sendo autorizado a matar uma pessoa. Isso mostra, no extremo, que nosso próprio corpo, nossa última e mais mediata forma de relação com o mundo, também não nos pertence.

Esse preâmbulo para dizer de uma experiência pessoal, se é que posso chamar assim. Aconteceu ontem. Há semanas decidi vender meu carro. Eu o comprei em janeiro de 2006. Esteve comigo, portanto, por 9 anos. Em geral, fui indisplicente em relação a ele: fazia manutenções mínimas (nesses últimos anos, pelo menos0. Resultado: acabou se depreciando, tanto econômica como materialmente (dá no mesmo, certo?). Pois achei um comprador. Por certa insegurança congênita, coloquei um preço abaixo do valor médio do mercado (na concessionária, me dariam algo ainda mais irrisório, para não dizer imoral). Achei o comprador. Este se interessou. Aparentemente, se empolgou, se ‘apaixonou’ pelo carro (a mulher dele, na verdade). E começa a negociação. E, à medida que as coisas iam se decidindo, a hora de se separar do carro chegava. Ao chegar, eu simplesmente entrei num estado de espírito que beirava o luto. Como explicar isso? Seria eu um materialista, um ser desprezível pelo fato de ter se apegado afetivamente a um objeto ‘que não me pertence’ (num sentido metafísico ou espiritual exdrúxulo qualquer?).

Mesmo após ter recebido o valor da transação (não sem certo stress, assunto para outro momento: a desgraça que é o tal do ‘jeitinho brasileiro’), eu ainda me sentia ‘dono’ do carro. Ao ver as pessoas ‘levando-o embora de mim’, não consegui (ainda não estou conseguindo!) perceber que ele não me pertencia mais. Ele já não era mais ‘parte de mim’. Contra qualquer bom senso, ou racionalidade, senti-me simbolicamente violentado. Durante as negociações, um profundo mal-estar, um profundo descontentamento… a vontade de fugir. Mas me faltou coragem (ou me sobrou racionalidade, neste ponto) de desistir da venda. Eu sabia que a permanência do carro era já inviável para nós em nosso cotidiano.

Como explicar tal apego a uma ‘coisa’, inclusive uma coisa em relação à qual eu próprio não dispendia tanta atenção? Por que a ‘coisa’ só se torna signo de uma ‘perda’ no momento em que ela ‘vai embora’ (o uso de ‘ela’ já é sintomático, não?)?

Fico pensando em como transformar essa experiência pessoal em algo compartilhável. Afinal, estou escrevendo isso em meu blog, onde todos podem ler. Um blog, e o meu em particular (segundo o que acredito), diferentemente de um Facebook, por exemplo, só tem valor se transcender a mera experiência individual, a picuínha de uma vida banal (e falo isso sem qualquer desprezo ou ironia). Então, como posso vir aqui, escrever sobre essa experiência surreal, e, ainda assim, comunicar algo a partir dela e que não diga mais apenas respeito a mim?

Aí vai minha tentativa…

1) As coisas, ao contrário de certo pensamento marxiano vulgar, não são um ‘fetiche’, necessariamente. As coisas, objetos materiais, são suporte, são um veículo, de processos psíquicos: tanto por projeção quanto, sobretudo, como ‘objetos transicionais’ (Winnicott). Eles estão à nossa disposição para nos ajudar a materializar, digamos assim, algo que de outra forma seriam apenas sombras de nosso eu, projetadas em uma tela tão irreal quanto imaterial;

2) Meu antigo carro concentrou, em si, uma grande quantidade do que hoje eu só tenho como memória: lugares em que passei; conversas que tive em seu interior, enquanto dirigia; uma vida que foi se construindo (eu o comprei exatamente numa transição importante de vida, a qual lançou as bases para meu estágio atual de vida…e no qual estou até agora…hora de mudar?); e, sobretudo, nos bancos de trás dele, enquanto minha esposa dirigia, minha cachorrinha (a primeira ‘minha’) morreu, nos meus braços.

Faz exato um ano que minha cachorrinha morreu. Ela morreu dia 25 de janeiro de 2014, por volta das 13h00, no meu antigo carro, em seu banco de trás, quando íamos correndo, desesperados, para o veterinário. E ontem, dia 24, meu carro, digo, meu antigo carro, deixa a garagem da minha casa, com dois estranhos dentro, que o compraram legalmente (por um valor abaixo do mercado, conforme eu já disse e cujo erro admito), indo embora para sempre, indo servir de objeto transicional a outras pessoas… Ele certamente será últil a outras pessoas, e será, talvez no futuro, se estas pessoas que o compraram não forem insensíveis em relação às ‘coisas’ que os cercam, parte da lembrança delas.

3) As coisas são parte de nossa memória, de nossa vida, de nossa história. Não se trata, avanço logo a me ‘defender’, de um ‘fetiche da mercadoria’, quando esta inverte o jogo e domina o homem, que deveria, sempre, ser sujeito. Não se trata disso, em definitivo (o marxismo, e todo marxista que já conheci, não parecem ligar muito para afetos, são mais racionais e ‘iluministas’ do que possam pensar). No meu caso, meu carro não era só uma questão de ‘status’ (uso das coisas ‘objetivas’ para afirmar uma posição social subjetiva), mas, agora que não o tenho mais, de memórias.

Por que, afinal, servem os museus? Ora, não teríamos nós, ainda que de modo imaginário, nossos próprios museus, com nossos objetos significativos?

Pois, pela primeira vez em uma simples transação comercial (negociação de coisas entre ‘pessoas físicas’ – CPFs), tive a sensação de que tiraram uma parte de mim. Quero dizer, eu mesmo, racionalmente, tirei essa parte de mim. Pois, no jogo das negociações, nas compras-e-vendas, o que impera são pessoas sem alma, seres de quem esperamos apenas o dinheiro pelo que julgamos valer nossos objetos. Com a saída de meu antigo carro da minha zona de vida, algo paradoxalmente parece ter mudado; aquele motivo que estava subjacente à sua compra agora perdeu-se ou precisa ser atualizado. Indo mais longe: a venda de meu carro me mostrou, por incrível que pareça, a passagem indelével do tempo, e todas as perdas que seu transcurso traz.

Admiro esses homens que vivem suas vidas de um modo tão prático e industrioso que não precisam, nem de longe, passar por isso que narro aqui – e que, se lessem isso que escrevo, sequer entenderiam. De duas, uma: ou são tão ‘coisas’ como as coisas que transacionam, ou são seres práticos/pragmáticos que, como milhares de nossos ancentrais, nos trouxeram nessa situação de merda que vivemos hoje. De todo modo, me sinto um estranho completo, mas não tímido o suficiente para deixar de registrar isso aqui.


casa e Ila 154Gabi(zinha)
09 de novembro de 2000 (Piracicaba/SP)
25 de janeiro de 2014 (Natal/RN)


Interlocução com inimigo imaginário

Você, você me irrita quando sugere, sem perceber, que o que eu estudo é algo que não leva a nada. Sim, você me confronta com o direito de viver quando, simplesmente, dirige suas perguntas intelectuais. Está certo que, ao fazê-lo, seu rosto adquire um ar de intelectual. Você já se viu no espelho, você já teve a oportunidade de perceber que, ao achar que está sendo intelectual, você se transforma, se parece com alguém que perdeu um parente próximo, uma boca a anunciar uma notícia fúnebre? Não vejo alegria em você quando você tenta ser um intelectual. Mas há mais. Muito mais. Você, você só se interessa por aquilo que, nas escrituras da vida social, se enuncia como insígnas do bem-sucedido. Você muda quando há algum prêmio no ar, mesmo que tal prêmio jamais tenha qualquer vestígio de grana. Não importa. O que você busca é a certeza, a garantia de que, se a maoria valoriza algo, esse algo é importante. Tem mais. Você diz que gosta de crítica, mas você não gosta. Você manda “bater no peito”, pois você aguenta. Mas não, não é bem assim. Você é profundamente inseguro. Você não sabe o que está fazendo na cadeira onde está sentado. Você, aproveitando de uma atividade que exige autoria, você acha que tem algo de importante a dizer. Você é, no fundo, um grande narcisista. Um narcisista não é alguém que se olha e se perde no espelho. É alguém cujo ego é profundamente vulnerável. Você não consegue, sequer por um único segundo, esquecer-se. Você não consegue simplesmente fazer as coisas, deixar-se no fluxo da atividade: você é uma chaga aberta, uma questão irrespondível que algum adulto, no passado, lançou – ou seja, você é, no fundo, a carne que anima um fantasma inspirado por outro (seu pai, sua mãe, qualquer um que, um dia, tenha sido importante para você). E o que você quer? Você quer voltar para a casa de seu pai e sua mãe. E tem mais. Você não sabe se ouvir. Você é alguém que se repete demais. Você já percebeu o quanto você se repete, o quando diz a mesma coisa, quando muito, com uma singela variação do mesmo? Não, decerto você não percebeu isso. Nunca perceberá. O que lhe move? O que lhe motiva? O prêmio. Qual prêmio? Nem você sabe, mas a verdade é que você é uma pessoa prêmio-orientada. Você gosta de qualquer coisa pronunciada em francês ou inglês. Se alguém tiver nascido acima dos trópicos, pronto!, isso já será suficiente para chamar sua atenção. Você é um grávido sem filho. Barriga vazia. Esperando, esperando… esperando a caravela aparecer no horizonte e lhe trazer o estrangeiro. Só que ele não pode falar português, é claro. Não pode. E digo mais. Você, quando eu falo de alguém, quando eu falo do cabelo de alguém, você acha que não é sobre você, que você, não, você tem o cabelo perfeito. Você me faz querer fugir para a lua. Você já pensou em fugir para a lua? Não? Pois pense. Você nunca diz o que realmente quer. Talvez você seja um supersticioso; ou talvez você seja alguém que convive com pessoas como eu apenas para cumprir o que lhe é exigido no trabalho; mas, no fundo, você convive, na sua mente, no seu horizonte, com super-homens – não, veja, isso é importante!, não os super-homens, os dândi, de tipo nietzschiano, mas com fantoches divinizados, pessoas superiores pertencentes a nichos dos quais, claramente, você não faz parte, mas que gostaria muito. Você só se move como uma mariposa em direção à luz do poder. De novo, não o poder do autor de “A vontade de poder”, mas o poder capaz de esconder sua inabilidade para ir além de frases “criativamente” montadas. Você é um especialista em falar do que não vive. Pois é. Você. Como há coisas sobre você…Eu gostaria de gritar, de berrar, de falar bem alto tudo sobre você. Para piorar, se houver um grupo, um amontoado de “você”, eu consigo ficar louco. Mas, para meu infortúnio, meu infortúnio, você é um coletivo…Sinceramente? Eu acho melhor analisar essa orda de “vocês” pela perspectiva behaviorista; sim, comportamentalismo. O resto, o tal do “simbólico”, sabe o que é? É labirinto. Fantasia. Gente precisando falar, preencher o espaço oco com palavras igualmente ocas.