Fim do mundo e propósito do trabalho

Assisti recentemente uma série animada, Carol and the end of the world (Netflix). Ela me foi indicada por um amigo que, como eu, estuda trabalho. O plot geral é o seguinte. O mundo está prestes a terminar. Um misterioso planeta gigante está em rota de colisão com a Terra, e acompanhamos a estória da protagonista, Carol, mais ou menos seis meses até a catástrofe.

A cada episódio vemos algo já bastante batido em produções apocalípticas desse tipo. Cada pessoa se entrega a realizar as fantasias mais malucas que você possa imaginar, e toda a estrutura societária de comportamentos prescritos é basicamente apagada. De fato, aqui também assistimos a um mundo sem fronteiras, limites, proibições, pre-conceitos, papéis esperados e assim por diante.

O cenário é de desolação: prédios abandonados, ruas vazias, um estado de quase-anarquia, só que sem baderna (o que é interessante). Uma terra pré-apocalíptica com uma surpreendente dose de convivialidade. Talvez a revolta, a desordem e a bagunça tenham ocorrido antes. Afinal, só temos acesso aos últimos seis meses. Não sabemos, pelo que me lembre, quando a realidade de que um planeta se chocaria com a Terra se tornou evidente.

Mas o áuge da série, e é por isso que a comento aqui, é o lugar que ela reserva para o trabalho. Imagine se soubéssemos que deixaríamos de existir dentro de seis meses. A última coisa que você consideraria seria trabalhar. E eis que, no meio do caos e da destruição, um prédio se destaca, imaculado, duas torres, incorporando a mais fina das engenharias de offices dos EUA.

Somos então apresentados a um escritório de contabilidade. Mais taylorista impossível. Mais impessoal impossível. Mais rotinizado impossível. Porém, é quando ela descobre esse último refúgio da corporate America que Carol se transforma. Ela parece encontrar novamente seu propósito de vida e seu sentido.

Os totens do ambiente corporativo, como uma máquina de fotocópia ou uma jarra de café, são elevados a um status de objeto de desejo para Carol. Todo o massacre da banalidade de um escritório contábil, com sua obsessão por relatórios fixados em casas decimais, é apresentado em reverso. O escritório é transformado num refúgio contra a falta completa de sentido diante de uma eminente extinção planetária. Diante de coisas grandes, como diria Nietzsche, o mais confortável é se fixar em coisas ínfimas.

Quando os gestores perguntam quem gostaria de continuar a trabalhar noite adentro fazendo hora extra, eles o fazem na forma de oferta, não de obrigação. Quer dizer, ficar de fora de fazer hora-extra era o que ninguém queria. Isso seria o desespero. Continuar trabalhando, como máquinas, era o que, paradoxalmente, fazia aquelas pessoas “humanas”. Entre aspas pois, na verdade, a robotização é criticada, e aos poucos vai sendo minada pelas iniciativas de Carol (por exemplo, ao lembrar do nome de cada funcionário). Mas aqui a robotização tem como base a incapacidade de reconhecer o fim do mundo, literalmente.

Porém, é preciso estar às vésperas do fim do mundo para se esquecer das questões fundamentais e mergulhar no trabalho, usando-o como um álibi, como um substituto, como algo que as pessoas fazem, mesmo não precisando (como na série), no lugar de fazer o que realmente importa? Pessoas que usam o trabalho como álibi são como Sísifo, quando este se preocupa com a tarefa de subir e descer a pedra, e não com o sentido mais amplo de sua própria condição: alguém castigado a esse trabalho repetitivo pela eternidade afora.

***

Dois colegas e eu estamos trabalhando numa ideia que pode explicar a questão acima. Trata-se de pensar no propósito do trabalho em dois planos possíveis. No primeiro, temos o propósito NO trabalho. Aqui, o trabalho é apenas uma dentre as várias esferas de vida de uma pessoa. Ter propósito nessa esfera em particular é importante ou mesmo fundamental. Afinal, passa-se muito tempo de vida nela. No segundo plano, temos o propósito DO trabalho. Aqui, trata-se de uma dimensão mais geral, envolvendo não um trabalho em particular (um emprego, uma ocupação, uma atividade), mas o propósito de ter de trabalhar no fim das contas.

No caso da série, o que vemos é uma ênfase no absurdo que é tomar o propósito DO trabalho de modo puramente automático. O trabalho é um álibi porque ele, em sua globalidade, apaga qualquer outra esfera de vida da pessoa. No caso da série, essas outras esferas são obviamente reelaboradas, pois diante da morte (sua, mas também do planeta inteiro), quais são as prioridades? Qual esfera de vida deveria tomar a dianteira? Realizar aqueles “projetos” que nunca foram realizados porque nunca havia tempo, já que só se trabalhava? Ou simplesmente mergulhar no niilismo, do tipo: Já que o mundo vai acabar, ‘que se dane tudo’?

Obviamente, o fim do mundo é só uma metáfora. Pois, no plano pessoal, por mais improvável que possa parecer no momento, nossa vida pode acabar a qualquer instante. Num piscar de olhos. A morte não é um “evento” solene, algo que só acontece após uma longa preparação, tipo uma festa de casamento ou uma formatura. A morte é banal, assustadoramente banal. Então, ela pode acontecer sem a menor pompa. Dessa perspectiva, é como se todos nós estivéssemos esperando pelo “fim do mundo”. É que não pensamos nisso. Claro, isso é até importante para nossa saúde mental.

O propósito DO trabalho é uma dimensão fundamental do significado do trabalho. Se as pessoas parassem realmente para pensar sobre ele, em vez de só se preocuparem com o propósito NO trabalho (“Ah, hoje tenho que terminar aquele relatório”, “Meu chefe me reconheceu hoje”, etc.), poderíamos ter uma mudança societária ampla. Na verdade, eu até acho que as pessoas pensam nele, só não de modo totalmente consciente. Uma forma de indicar que elas intuitivamente pensam (ou sentem) é o número cada vez maior de sofrimento, adoecimento, suicídio, apatia, desmotivação e depressão no trabalho. No fundo, tudo isso é sintoma, a mania de coisas não resolvidas de verdade voltarem a assombrar as pessoas.

Realismo não-humano

Gosto de divagar. Acho que você já deve ter percebido isso a esta altura. Pois bem. Enquanto estava correndo estes dias, um pensamento ficou passando pela minha mente o tempo todo. Na verdade, dois pensamentos. São duas frases que li em algum lugar e que, por alguma razão, acho que têm relação uma com a outra.

A primeira é a seguinte. Se uma árvore cai na floresta, mas não tem ninguém (nenhum humano) para ouvi-la caindo, pode-se falar em som?

A segunda é esta. “Deus”, essa palavra e tudo que vem junto dela, existiria sem nossa presença (humana)? Ou foi apenas com o aparecimento de humanos que Deus começou a ser considerado? Esta última eu lembro a fonte: o escritor Jon Fosse. Não é uma citação literal, mas a ideia é mais ou menos essa mesmo.

Em ambos os casos, há um problema realista. Sobre o quanto a realidade (um som, Deus) é congênere com a espécie humana. Um ruído de uma árvore caindo – sem um humano por perto, o que ele seria? Digo, não a ausência de um humano em particular por perto, mas a espécie humana inteira. Se só houvesse chipanzés ao redor da árvore caindo, estes, no máximo, só procurariam não ficar embaixo dela. Obviamente, talvez não haveria associações de um ruído a um som e a uma constelação de possibilidades para esse som (eg.: por que a árvore está caindo? Qual o tipo de árvore, a julgar pelo som?). Nestas horas, lembro da minha cachorra. Quando ela está dormindo, e crianças fazem barulho na rua, é como se ela nem notasse. Como se lhe fosse totalmente indiferente. Claro, há alguns sons que são gatilhos para ela. Mas eu fico admirado com a suavidade do sono dela diante de sons que, para mim, seriam absurdamente revoltantes (tenho insônia, e parte tem a ver com a personalização extrema de ruídos).

Sobre Deus, bom, até onde sei, antes da espécie homo, não há nenhum monumento construído, nenhum livro sagrado escrito, nenhum ritual coletivo, muito menos guerra e morte por causa Dele. Animais nasciam, cresciam e morriam, e tudo ficava por isso mesmo. Aliás, por cinco vezes a vida foi praticamente riscada do mapa, de plantas a animais gigantes como dinossauros. A Terra, durante essas extinções em massa, já foi acertada por meteoros, sangrada de dentro por lava, chocada contra sua própria pele por conta de placas tectônicas em deslocamento na superfície, chuva de ácido e todo tipo de desgraça. Diante dessas catástrofes, nossos furacões e tempestades não chegam a ser nem um resfriado para um planeta com bilhões de anos e, portanto, uma longa ficha médica. Não creio que nenhum desses animais, no nível que fosse de suas capacidades sensitivas, tivessem cogitado que tudo aquilo que lhes acontecia era por causa dos “castigos” de um Deus irritado com a fraqueza espiritual desses seres. Eles simplesmente se foram para sempre. E se foram na ignorância, pois viviam no realismo da “coisa em si” (seus corpos, a Terra).

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Com o “giro subjetivo” na filosofia, da antiga para a moderna, o sujeito (humano) passou a ser a fiação do conhecimento. A subjetividade é uma espécie de base epistemológica fundante, por meio da qual a natureza é filtrada. A justificação do conhecimento passa pelo sujeito. Quando digo ‘sujeito’ não penso em uma pessoa de carne e osso. Mas em um tipo de plano. Como disse uma vez o filósofo Richard Rorty, é óbvio que havia ovos de dinossauros antes dos humanos (algo assim, me perdoe a paráfrase). E, obviamente, tais ovos não tinham relação causal nenhuma com humanos, até porque nem existíamos. Porém, tais ovos, hoje com nós humanos por aqui, “são” isso: ovos. E sabemos, a partir de vários vestígios deixados por aí, os tipos de ovos que existiam, a relação desses ovos com o tipo de animal, e assim por diante. Quer dizer, eles continuam a ser as mesmas “coisas” que existiam antes de estarmos (humanos) por aqui. Mas eles, paralela e incomensuravelmente, são partes de narrativas que nós humanos construímos e que integramos em sistemas de crenças, relações, significações.

Quer dizer, ao mesmo tempo, “ovos” são ovos (com o sujeito na jogada) E são “coisas em si” independentes de humanos. A finalidade de denominá-los de “ovos” (deve haver alguma raíz latina ou grega por detrás) é baseada em seu propósito: classificá-los, estudá-los e, no final, manipulá-los tendo em vista objetivos humanos. Ao passar pela “subjetividade”, os ovos são subjetivados para dentro (para a cultura e usos humanos; eg.: ovos de páscoa), e objetivados para fora (para a produção de frangos, por exemplo – isto é, para uma mudança concreta na coisa em si).

Portanto, tanto o som como Deus, de acordo com esse raciocínio, poderiam ser ambas as coisas. Primeiro, coisas-em-si; segundo, objetos, no sentido de se oporem (em relação dialética, em que um depende do outro) ao sujeito (sujeito<>objeto). No caso de Deus, porém, você já deve imaginar a complicação, pois, para começar, não o vemos (não há imanência). A menos que se considere Deus como “tudo o que há” – uma espécie de “transubjetividade” sobre a qual assenta a própria condição do Universo. Quer dizer, em escala infinita, a mesma função desempenhada pela subjetividade na construção do conhecimento humano.

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É sabido que Kierkegaard desenvolveu sua filosofia ao redor de uma explicação racional para a questão divina. Por mim, termino com uma ideia simples dele: a de salto. Pois pode ser disto mesmo que se trate: de um salto do realismo humano para um “realismo não-humano”. O momento em que mergulhamos e nos dissolvemos na coisa-em-si de nossa máteria, nos igualando finalmente a ela, talvez com um pouco mais de conforto do que tem ocorrido há bilhões de anos com outros seres vivos.

Paradoxos da internet

Há não muito tempo atrás, se você estivesse na fila do banco, ou esperando por um atendimento médico, você não tinha muita opção que não aceitar o tédio da espera. Não havia opção de mergulhar no celular e desaparecer em algum reino virtual totalmente desconectado com a sua experiência real e presente: estar entediado enquanto espera. Nessas circunstâncias, e em muitas outras, o celular é um poderoso instrumento de fuga. Pense num adolescente se reunindo com seus colegas. É muito comum cada um mergulhar no celular enquanto estão junto de outros. Por quê? Porque é o jeito como adolescentes modernos estão “lidando” com a ansiedade de estar em grupo.

Isso não deveria ser surpresa, afinal, a internet como um todo tem se transformado no avesso do que psicólogos da abordagem cognitivo-comportamental denominam de “exposição” – se você tem ansiedade em relação, digamos, a dirigir, sua tendência natural é evitar dirigir. Porém, a única forma de superar essa ansiedade ou medo é…dirigindo. Assim, a exposição gradual, assistida por um terapeuta, isto é, de algum modo protegida, vai, progressivamente, expondo a pessoa a essa situação real e, com o tempo, seu medo de dirigir diminui.

Considere agora algo menos concreto como dirigir. Suponhamos que seu filho ou filha tenha ansiedade em relação a estar no meio de outras pessoas. Em vez de se expor à situação real de estar com outras pessoas, por exemplo na escola, seu filho tem à sua disposição o mar de possibilidades irreais da internet: jogar online, conversar com dezenas ou mesmo centenas de “amigos virtuais”, etc. É claro que ninguém vai sugerir que a solução é ficar longe da internet. Porém, não há como negar o paradoxo: ao mesmo tempo em que ela nos permite infinitas possibilidades (no virtual), ela acaba reduzindo as possibilidades de ações no mundo concreto.

Assim, outro paradoxo da internet tem a ver com nosso grau de liberdade. Um adolescente hoje em dia tem muito mais liberdade virtual que física. É muito mais provável que os pais de um adolescente o permita “perambular” pela internet em vez de dar uma volta no quarteirão – no Brasil, de fato, em algumas localidades é extremamente perigoso andar na rua. Mas a obsessão com segurança fez com que nos voltássemos sem muito critérios para a internet, em que pese a crescente preocupação com segurança digital e restrição de conteúdos para o público jovem.

Por fim, não menos grave é o estímulo que a internet coloca sobre a ruminação. Como muitos sabem, mensagens negativas atraem muito mais a atenção das pessoas. E a internet, repleta de semi-celebridades dispostas a praticamente tudo para ter uma audiência e faturar, mais uma vez expõe seus exageros. Por exemplo, considere a tendência recente de pessoas exporem seus traumas de infância em redes sociais. De um lado, isso serve para a pessoa “colocar para fora” essas situações, que no passado eram proibidas de vir à luz, serivindo para perpetuar o sofrimento e a discriminação. De outro lado, o paradoxo: quanto mais essas pessoas falam desses traumas, mais a linguagem “psicológica” se perpetua, quando só o que se fala é de ansiedade, depressão, violência psicológica, assédio e assim por diante. Quer dizer, a internet permite uma constante ruminação – e a psicologia já nos mostrou os riscos disso, quando a pessoa só fica pensando no seu próprio problema ou situação, e se torna incapaz de romper a circularidade. Ela se prende em um looping que só intensifica seu sofrimento.

O tédio é super importante, especialmente para um adolescente. É uma experiência de se sentir vazio. Porém, em vez de deixar o tédio “falar” e aprender com ele, nos impulsionando a experimentar, a fazer coisas diferentes, a preencher o vazio, nós o postergamos, mergulhando na internet, surfando de texto e imagem a texto e imagem, sem conexão com o mundo real e, sobretudo, com seu próprio mundo afetivo.

O compartilhamento de experiências é importante. Saber que você não está sozinho, que seu sofrimento não é só seu, ajuda na superação do problema, criando redes de solidariedade e apoio. Mas quando todo mundo amplifica seus problemas, tornando-os tão banais como em um post ou vídeo de alguns segundos em redes sociais, quando a linguagem é tão tóxica e poluente que você não enxerga mais nada além dela, então não podemos desconsiderar que a suposta solução para o problema está contribuindo, via ruminação, para sua própria existência. Não à toa os adolescentes estejam hoje vivendo uma crise de ansiedade generalizada, que vai de par em par com a popularização da linguagem psicológica em todos os recantos da internet.

É preciso haver barreiras. A ruminação da internet torna difícil a criação de barreiras. É preciso riscar uma linha no chão a fim de estabelecer os limites do falar por falar. Se pensarmos novamente nos insights da perspectiva cognitivo-comportamental, a internet está hiperinflando crenças e pensamentos, culminando em potenciais profecias auto-realizadoras. Pesquisadores têm chamado isso de “inflação de prevalência” – quanto mais consciência as pessoas têm, via narrativas plenamente disponíveis, mais elas passam a se definir e a ver o mundo da perspectiva de sintomas e diagnósticos.

Fragmentos dispersos, 8

O demônio do meio dia. Já tive a experiência de ficar deprimido em um clima frio. Neve. Pouquíssimo sol. Escuridão engolindo tudo. Você vendo pessoas, corpos quentes, mas isolados uns dos outros. Você é mais um no espaço. E também já passei pela experiência de ficar deprimido em ambientes muito quentes. Aquele sol estalado. Ruas secas. Poucas árvores. E as poucas árvores cheias de areia seca cobrindo as poucas folhas verdes. Casas desordenadas, com cores discrepantes. Transições entre classes sociais sem aviso, e abruptamente. Cavalos na rua, com pessoas sem camisa. Torradas pelo sol. O ar-condicionado artificial, gerando tremores no corpo, quando tudo o mais está engolido numa bola de luz. Não sei o que é pior, sinceramente. Há um livro, famoso pelo que sei, O demônio do meio-dia. É sobre depressão. Interessante a imagem, não? Uso associação livre, pois não li o livro, exceto algumas páginas. Acho um livro muito grande para falar de depressão. Você é enxotado logo de cara. Um deprimido não quer atravessar mares infinitos de páginas para saber porque sofre. Você precisa nadar muito, quase como um atleta, para chegar ao outro lado da margem e descobrir o que lá existe. Mas a imagem é boa. Pois imagine um demônio, figura por excelência da noite, aparecer exatamente ao meio dia. Se for onde moro, ele vai aparecer naquela hora em que tudo parece grudado no lugar. Vai aparecer bem no momento do excesso de luz. De transparência. É muito ruim a luz perpétua, pois ela não deixa nenhum espaço para nossos segredos, para as penumbras das possibilidades de novos sentidos. Não. A luz perpétua de um meio-dia praticamente na linha do Equador irradia obviedade, quase um tapa na cara, uma obscenidade. Um demônio nu. Mas, talvez justamente por isso, profundamente, terrivelmente assustador. Aterrorizante.

O chamado. Às vezes me enrolo como se fosse um novelo de linha. Vou me enrolando ao redor de meu próprio eixo que, sei lá, fica tão pesado que não consigo compreender. Então, tudo começa a espiralar, a girar de dentro para fora, e de novo de fora para dentro. É um peso muito estranho. Quero fugir. Claro, no fundo não aguento meu próprio peso. E o movimento de se lançar e se enovelar novamente cansa. Cansa dolorosamente. Mas para onde fugir? Há, confesso, uma circularidade, como num jogo de espelhos. Circular. O narciso olhando sobre sua imagem projetada na água? Pode ser. Acho que nunca havia realmente sentido, visceralmente, essa metáfora. Movimentos repetitivos. Como se fosse um código de computador, programado para executar, ad nauseam, a mesma rotina. Que bom deve ser um código de computador. Sem consciência. Apenas a repetição, a repetição, a repetição até que algo externo lhe impeça de continuar. Repetição. E você consegue fazer muita coisa sem sair do lugar. Você consegue pensar muita, mas muita! coisa, sem pensar. Basta que se lhe apresente uma imagem, um pensamento, uma “tese” infantil gravada na ponta de uma flexa enterrada na sua carne. Uma infecção. Pois uma infecção nada mais é do que um organismo tentando se reproduzir (replicar, duplicar, repetir), como se os recursos fossem infinitos, e outro organismo tentando impedir isso de acontecer, mesmo que, no processo, este último organismo acabe prejudicando a si próprio. Ambos os organismos…agindo e reagindo conforme foram programados. Ambos lutando, não por alguma utopia abstrata, mas meramente para se manterem exatamente como são. Mas voltando ao novelo de linha. Há uma saída, uma grande e enigmática saída. Quando saio da repetição, ou quando pego essa repetição (que está “dentro de mim”) e saio na rua, e, de certo modo, sinto o “mundo”, algo ocorre. Um sinal de vida se enuncia. É como uma semente no chão, enterrada sozinha, no escuro úmido. Quando ela é irradiada pelo sol, “algo” a faz querer sair da terra. Algo a faz se mexer, a romper a unidade de seu próprio “ser”, fechado e encapsulado. Eu sinto a mesma coisa. Mas, ao mesmo tempo, fico com um enigma: que força é essa? Como posso me abrir a ela? Para onde ela poderia me levar? O que preciso fazer? Na escuridão do solo, na clausura da casca da semente, há um sinal de vida, um despontar sobre o desconhecido, para cima, para a luz, para o vento, para o aberto. É como um cheiro de comida gostosa no ar, que deixa um gato intrigado e lhe sugere uma direção. Mas, para onde?

P.S.: já ficou preso num looping, ouvindo a mesma música repetidas e repetidas vezes? Por que fazemos isso? O que queremos repetir, no fundo?

O tamanho

Considerando todas os planetas e estrelas, a parte observável do universo, e toda a dark energy, tudo o que não é visível no universo, a quantidade estimada total de energia que ele contém é equivalente a:

[67 000000000000000000000000000000000000000000000000000000000000 toneladas de TNT; ou 67 trilhões trilhões trilhões trilhões e trilhões de toneladas]

Esta seria também a medida de quanto o universo pesa.

Enquanto isso…

Estamos preocupados com quanto nós pesamos. Com o quanto temos no banco. Com o número de sapatos que temos. Com o quanto nossa vida, de um modo geral, vez ou outra, ou sempre, parece excessivamente pesada, difícil de carregar.

Proibido fumar

Creio que tenha sido Paulo Maluf, quando era prefeito da cidade de São Paulo, quem tenha decretado uma lei proibindo as pessoas de fumar em locais fechados. A revolta foi tanta que até uma música surgiu tratando disso. Na época, eu estava provavelmente entrando na adolescência. Desse período e fato, hoje me lembro só de uma estranha sensação. A coisa não fazia muito sentido para mim, à época. Não porque tivesse alguma opinião sobre os malefícios do cigarro ou sobre “fumantes passivos”. Nada disso. Só achei o assunto coisa de gente esquisita. Bom, vai ver é exatamente isso que crianças e jovens adolescentes achem hoje em dia de toda essa conversa de políticos ou profissionais da atuando em saúde pública.

Pulando para os dias atuais, acho que temos uma nova epidemia. Mas não de cigarro. Antes, você andava pela rua e era fácil ver pessoas fumando. Muitas delas, dependendo de seu local. Até comerciais de cigarro havia na TV aberta. O cigarro era associado com liberdade de escolha, status, ousadia, especialmente por parte das mulheres.

Nossa epidemia atual, que tem o diferencial de incluir até mesmo crianças, é a do celular, do smartphone. Basta você sair de casa. Pode pensar no lugar que for. Ali haverá quase 100% de pessoas mergulhadas em seus aparelhos. Estes dias, vi uma pessoa na garupa de uma moto segurando seu celular e, sei lá, falando com alguém no aplicativo de comunicação, ou ajudando o motorista a se localizar (olhando no mapa apresentado pelo celular). Se você for na praia, lá estarão eles. No supermercado, idem. Durante uma reunião, claro. Na sala de aula, infelizmente. No médico, então, aí é certeza quase absoluta de encontrar pessoas atarracadas com seus aparelhos.

E sabe o que é interessante? Bom, da mesma forma que no final dos anos 1980 e início dos 1990 ninguém achava estranho outros fumando…dentro de um avião!, ou em um restaurante fechado… hoje também a maioria parece não notar ou então se importar com essa nova epidemia. Inclusive, até mesmo riscos para a saúde o celular pode provocar – por certo, e falo isso por experiência, para os olhos. Para não mencionar o impacto sobre a atenção.

A situação é tão bizarra que, vez ou outra, leio matérias de jornalistas que fizeram algo absolutamente impensável, oh!, ficar uma semana sem celular/internet. Hoje mesmo ouvi uma matéria dessas. O casal resolveu chamar até a operadora de internet para vir desconectar o modem. E então a criatura passa a descrever o que seria a reinvenção da roda: como fazer compras, como chamar o médico, como encontrar um endereço, etc.

Existe, ou existia, um campo de estudos sobre cognição expandida. Segundo alguns dos insights de que me lembro dessa perspectiva, nós tendemos a externalizar partes que antes eram de nosso próprio cérebro/mente para máquinas ou objetos externos. Há nisso, é claro, o potencial de uma simbiose proveitosa para o humano. Por exemplo, contar é muito mais fácil com um pedaço de papel, ou mesmo com os dedos, do que apenas com cálculos mentais (pelo menos, para a maioria da população). O papel, a caneta, o lapis, são externalizações que nos permitem conduzir nossas operações matemáticas. O cérebro em perfeita harmonia com o resto do corpo, e com a concretude ao redor.

Similarmente, no início, éramos forçados a manter uma agenda de telefones. Um caderninho, o que fosse. Os primeiros celulares, mesmo sem grande memória como as dos aparelhos de hoje, já nos havia permitido dar um primeiro salto do caderninho para o chip. Mas a evolução desses aparelhos foi tamanha que hoje eles representam o que certamente um computador da NASA representava no passado, ocupando às vezes prédios inteiros. O ponto que gostaria de fazer não é o da nova estética que está sendo criada pelo smartphone, como quando estamos falando com alguém e esse alguém está, em vez de prestando atenção em nós, falando com outro ser humano quilômetros longe. Não. Falo dessa etapa, ainda desconhecida em termos de suas consequências, em que externalizamos praticamente toda nossa vida mental, inclusive nossa sociabilidade, para um aparelho – que, supostamente, nos coloca em contato com outros seres humanos.

É como se estivéssemos numa imensa nuvem de fumaça, mas desta vez não literal, como estavam as pessoas na época em que fumar em público e espaço fechados era cool. E, repito, agora usando uma expressão de George Carlin: nobody seems to notice; nobody seems to care.

Mais do que 100% de identificação

Amei o vídeo abaixo. E não falo “amei” no sentido coloquial que às vezes as pessoas usam essa expressão, no fundo querendo dizer nada. Eu realmente amei, de paixão, o vídeo (o texto, na verdade). Até hoje, nessas explorações aleatórias que faço pela internet, não havia achado uma peça que representasse exatamente o que estou vivendo já faz algum tempo. Lembro de que, em outra crise profunda que tive, “descobri” Schopenhauer e Nietzsche. Eles me ajudaram a atravessar uma dor profunda, dando-lhe algum sentido. Agora, estou em uma nova situação de dor profunda (e sem encontrar sentido), a mais longa que já tive, um inverno longo, longo, mais longo de que tenho lembrança. O tipo de inverno que deixa tudo branco, indistinto, indiferente, gerando, como está no vídeo, calos que me impedem de sentir, ao toque, o mundo e suas texturas. E a maior agonia é que, até aqui, não havia encontrado alguém para dialogar – uma pessoa, ou um autor morto (ou vivo, não importa). O vídeo, e seu texto, não chegam a ser o interlocutor definitivo, mas é o mais próximo com certeza. Engraçado que eu, sempre aos fins de ano (quando, normalmente, estou de férias), acabo citando produções desse canal. Mas este, poxa vida. Gostaria de traduzi-lo e ampliar seu alcance, mas acho que pode haver restrições de direitos autorais. O vídeo, porém, tem legenda em inglês, o que ajuda a disseminá-lo. Mesmo assim, cito alguns trechos a seguir, em tradução livre. É uma peça de arte, sensibilidade, precisão e amor.

Quando você era criança, você era cheio de entusiasmo e sensibilidade. O mundo é pequeno, e seus olhos são grandes. Mas quando você vai envelhecendo, tudo se torna maior, e você praticamente fica do mesmo tamanho – no máximo ganha uns centímetros. O caos, a complexidade, e a impossível obscuridade do mundo te cercam e te tomam à medida em que seu senso de significância e segurança diminuem até virarem um minúsculo ponto. Você segue adiante, segue o fluxo. Você faz coisas, realiza coisas, você obtém coisas. Mas nada nunca mais resolve a questão – aquela inquietação profunda, agitação e desolação. Você se acha sempre no mesmo lugar, independentemente do quão forte você tente ou longe você vá. Pessoas queridas morrem, corações se quebram, coisas horríveis acontecem – você percebe cada vez mais as coisas horríveis que poderiam e vão acontecer. Tudo se torna um pano de fundo esfumaçado para os implacáveis problemas do dia-a-dia.

Finalmente, você aprende a como lidar com tudo isso. Você se torna anestesiado. Indiferente. Você faz de tudo para que nada realmente te afete. Não é uma decisão consciente. Você nem se lembra de tê-la tomado. A vida dói ao toque, e então, obviamente, você para de segurar nela com tanta força. Agora, quase nada te afeta muito, mas você também não sente muito mais as coisas. Não é exatamente apatia – pelo menos não no sentido tradicional dessa expressão. Não é exatamente depressão. É alguma outra coisa; alguma coisa entre ou externa a esses termos. Não é um sentimento de que você está em um tipo de areia-movediça, mas muito mais o sentimento de que as coisas estão “okay”, enquanto você está sentado sobre a areia de uma linda praia.

[…]

No fim, a vida move em estações. Não é sempre que estamos energizados ou animados ou principamente sintonizados com o bem. Não conseguimos ser sempre afáveis e receptivos. Nem sempre conseguimos ser brilhantes e transbordar vida. Mas, assim como o solo coberto com neve em uma paisagem invernal contém a habilidade de produzir vida quando a estação muda, assim também você tem a habilidade de fazer germinar uma nova vida quando o momento chegar. Você ainda tem seu mundo interno, suas faculdades, sua perspectiva, sua criatividade, e sua habilidade de adaptar e resistir. Se você não esteve sempre aqui [nessa situação], você provavelmente não estará sempre nela. E mesmo se você estivesse, você ainda conseguiria se adaptar, e você vai ficar okay. Seja em estações de luta, ou em uma experiência de uma vida inteira sentindo a frieza do universo, por meio de sua perspectiva e escolhas individuais, você ainda será capaz de te propiciar conforto, significado, o calor da fortitude invencível. Talvez tudo que tenhamos seja isso – o verão invencível dentro de nós -, mas talvez isso seja tudo de que necessitamos.

Nota. Vale o destaque: “No meio do inverno eu, finalmente, descobri que há em mim um verão invencível” (Camus).

Ansiedade

Para mim, e apenas para mim, qual o significado de ansiedade? Vou tentar captar algumas coisas que, da minha perspectiva, seriam a essência dessa palavra. Vou evitar, tanto quanto eu puder, de usar termos ou conceitos ou ideias de alguma corrente da psicologia, um hábito meu. O de racionalizar.

Um contexto em que ela surge é quando há uma única opção a alcançar, e uma em que minha posição não é assegurada. Vejamos um exemplo. Suponhamos que eu tenha entre 5 e 15 segundos, no máximo, para conseguir apertar um e outro botão do teclado do computador e conseguir me inserir em algo, atingir um resultado que é exato, matemático. Ao mesmo tempo, incontáveis outras pessoas estão tentando a mesma coisa, no mesmo tempo e com os mesmos números de botões. Eu posso estar sozinho em casa e ainda assim essa situação coloca em andamento meu sistema simpático. E, ato contínuo, minha atenção fica amedrontada e cometo erros que, em outras circunstâncias, não cometeria, ou o faria menos estupidamente.

Mas, ao não conseguir o resultado descrito na situação acima, aí é que tudo começa. Sou tomado por uma estranha sensação. Neste momento em que escrevo, não consigo achar uma palavra para representá-la. Mas consigo ver alguns de seus sintomas. Por exemplo, quando não consigo alcançar o resultado esperado, procuro resultados substitutivos. E, com isso, acabo inclinado a tomar decisões prejudiciais ou menos favoráveis para mim mesmo. É como se meu limiar de tolerância ou exigência diminuísse e, como numa forma de punição, eu aceitasse – na verdade buscasse – uma posição inferior àquela que eu teria caso o resultado inicial desejado fosse alcançado. É como se, ou o ideal acontece agora, ou mais tarde não vale mais. Prefiro um resultado substitutivo que sirva como a antecipação, graças à força de meu próprio controle, de algo ideal/desejado que não consegui agora.

Também fico inquieto. E surge uma sensação de tudo-ou-nada. Até mesmo de catástrofe. Procuro formas de dissipar essa inquietação. Faço várias coisas. Algumas vezes, resolvo comer em excesso, embora isso seja raro. Agora imagine que a situação descrita no segundo parágrafo ocorra todo dia. E considere que, mais dias não que sim, eu não consiga o que desejava, naquelas circunstâncias de concorrência. Aí vai havendo um crescendo, um acúmulo, de tensão. Vai se avolumando uma ideia dolorida acerca de meu valor. E aí surge novamente a ansiedade. Seria, ao invés, desespero? Bom, esta última palavra já é algo próximo de um conceito (eg., Kierkegaard), e expressei meu desejo de não adentrar por conceitos.

É muito fácil colar em um conceito para evitar de pensar. Admito que faço isso. Não é interessante que conceitos possam ser usados para que não pensemos? Sinto estar mesmo entrando na estrada da racionalização. Antes de sair dela: conceitos são o que, exatamente? Bom, em muitos casos, conceitos são vozes. Essas vozes têm respaldo na realidade, digamos, em alguma evidência empírica? Às vezes, sim; noutras, são só vozes de outras pessoas, criadas por seus pensamentos, suas experiências e sua coragem de criar.

Voltando à experiência. O que eu tenho até aqui? Posição não assegurada, em contexto de concorrência ou ganha-perde (sem meio-termo). Resultado não alcançado. Desejo de controle (ou perda de controle: veja a reação fisiológica). Obsessão por querer que algo aconteça agora. Inquietação.

Seria o corpo uma forma de entender isso? Talvez. Pensei nisso porque, nos momentos de ansiedade, o corpo me entrega. Ele não “performa” como esperado. Ele vai praticamente na contra-mão do que o pensamento esperava. Adianta o pensamento “comandar” o corpo? Respiração, meditação? Aliás, não haveria algo estranho justamente aí, no comando/controle do corpo? Pois, a rigor, tirando o sistema nervoso central (SNC), o que é o corpo? Um sistema organizado, interconectado, que age por meio de sinalizações elétricas/químicas e hormonais. Orgãos e glândulas. Receptores e decodificadores intracelulares. Ação-reação, física, química e, óbvio, biologia.

Não seria justamente o meu SNC, aka minha mente, que, no fim das contas, impõe uma ridícula parnafernálhia de controle sobre o que ela acha que pode controlar, o corpo (pelo menos o corpo ainda saudável)? Aqui poderia entrar pelo caminho de outra teorização, uma relacionando crenças (mentais) e efeitos corporais (mecanismos de tradução entre estímulos, chegando ao comportamento observável). Mas também não vou por ele. Sabe por quê? Bom, primeiro porque não quero racionalizar, como já disse. Depois, e talvez mais importante, porque o SNC e o sistema nervoso periférico (SNP) desenvolveram-se em relação a um ambiente.

Mas vamos mais além disso, pois não penso só no ambiente natural (e tampouco no mental). Quero ir mais além: por que diabos uma criatura impotente, como é o animal humano, não teria pavor (o que é bem diferente do medo de um predador, digamos), não se sentiria esmagado pelo simples fato de estar vivendo aqui na Terra e sabendo quem ele é de fato? É o único, o único!, animal que de fato sabe quem ele é no plano geral do ecossistema terreste e, por enquanto, na parte do cosmos que chegou a conhecer. Então, parece ser parcial (para dizer o mínimo) a teoria puramente adaptativa de explicação do fato de um sistema biológico ter se formado em reação a um meio que lhe era, efetivamente, hostil, e que agora está em um outro ambiente, e tudo que é “hostil” esta na cabeça da criatura. Isso seria pura e simples psicologia, e há muitas, mas muitas, outras camadas na complexidade do vivente. À psicologia, especialmente a de tipo cognitivo-comportamental, devemos deixar a ansiedade e o medo. Já é muito. Mas é absolutamente pouco também.

Deixe-me voltar ao eixo para fechar isso. Creio conhecer bem o mecanismo pelo qual o sistema simpático é ativado. O ponto de interesse é o automatismo com que ele acontece, quanto mais porque, em geral, não corro risco de vida algum – exceto risco narcísico? OK, de novo, aí está um conceito. Aliás, outro conceito para explicar o tal automatismo seriam as crenças estruturantes e também automatizadas. Mais racionalizações! Há, como eu já disse, talvez ou sobretudo um “risco existencial” também. Mas isso todo mundo tem, rico ou pobre, e nem por isso estão aí ansiosos (brincadeira, pois é claro que muitos, mas muitos!, realmente estão ansiosos por aí). Se você tirar qualquer sistema metafísico da jogada, é claro que está todo mundo exposto a esse verdadeiro, absoluto risco existencial real. Portanto, no campo mais amplo da reflexão, não seria um começo aceitar esse risco, depurá-lo das experiências banais cotidianas, e entender onde concretamente eu estou, sou e posso fazer? E eis que aqui deixo outra imensa racionalização, mas que pode ter alguns componentes de verdade. Haveria, pois, o pavor/terror (plano existencial), e haveria a ansiedade/medo (plano individual, cotidiano).

Enfim, estou só tateando, como se tivesse com um pauzinho fazendo desenhos na areira. Só me ocorreu colocar o corpo em questão, como uma hipótese. Mas por que ela surgiu, essa hipótese? Por que desejo escrever algo? Olha aí o pensamento novamente (a tela em branco “exigindo” ser preenchida, como se houvesse alguém ou algo aqui a me exigir qualquer coisa em meu próprio blog). Por isso pensei no corpo? Sim, talvez. Ou foi só para preencher o espaço mesmo. Engraçado, pois agora mesmo chegou uma informação que me deixou ansioso (e eu sei que nada que eu fizer vai mudar o curso que já está tomado…). E quem reagiu primeiro? Meu corpo. Acho que essa é a deixa para eu parar por aqui.

Fragmentos dispersos, 7

Travas mentais. Tive um insight em que penso ter resolvido a questão de que tratava no post anterior, sobre o impacto de um dia de trabalho. Sei que isso não é nenhuma originalidade (veja o conceito de “compartimentalização” por aí), mas pouco importa, desde que funcione. E, até aqui, tem funcionado. É algo bem simples: basta colocar uma espécie de trava na mente. Um tipo de comando em que você se auto-impede de trilhar alguns caminhos de pensamento. Por exemplo: ao chegar em casa, basta colocar uma trava no sentido de impedir o pensamento de ficar remoendo o dia, reensaiando formas de agir diferente nas situações a, b ou c. O dia passou, o dia acabou, ele não existe mais. Todas as impressões desse dia passam a ser fragmentos sem sentido de coisas já vividas. Não podem ser revividos. Não podem ser reproduzidos. Não tinham, para começo de conversa, nenhuma finalidade ou objetivo ou propósito de seguir determinado curso. Foram coisas aleatórias. Umas, agradáveis; outras, nem tanto. É como tomar uma chuva. Você chega em casa e logo troca de roupa. Não fica sentado no sofá com as roupas molhadas pensando que deveria ter levado um guarda-chuva. Você simplesmente chega em casa, tira a roupa, o sapato etc. molhados, toma uma ducha quente e toca a vida. Você nem pensa mais que tomou uma chuva no caminho da casa. Por que não poderia ser a mesma coisa para as atividades e os (maus) encontros durante um dia?

Peak performers. Ouvi um gestor de um grande fundo de investimento falar que ele estava profundamente interessado em “casos exepcionais”. Deu o exemplo de uma cantora norte-americana que fez um sucesso estrondoso com seus shows em 2023. Tal gestor diz ter levado a filha para o show dessa cantora, meio que dando a entender que, como pai, gostaria que a filha aprendesse “com a melhor”. É interessante. Um acontecimento que nunca me esqueço, duas décadas atrás, é quando tive minha primeira experiência como “terapeuta”. Foi durante o estágio do quinto ano da faculdade de psicologia. A paciente tinha uma questão com mulheres em revistas de moda. Dizia achar aquelas mulheres verdadeiros modelos, e que se ressentia profundamente por não ter o rosto, o corpo, o talento daquelas mulheres. Isso de algum modo me inquieta até hoje, essa secular tendência de as pessoas olharem apenas para os top performers, para os extremos de sucesso em cada campo artístico, profissional, pessoal. O tal gestor de fundos de investimento quer que sua filha só olhe para cima, só olhe e só intencione o melhor. Não, não, o melhor não. O excepcional. Todo o resto é só isso: resto e mediocridade. Não haveria nada a se aprender com aquela zona, em um gráfico de distribuição normal, que fica entre os extremos. Quer dizer, nada de bom com os 68,2% do meio (figura; [fonte]). As exigências estão ficando mais rígidas, e agora estaríamos apenas interessados nos 0.1%. Nos anos 1990 alguns psicólogos e sociólogos franceses chamavam o fenômeno de culto da performance ou da excelência. De lá para cá, o fenômeno só tem se intensificado. Não é interessante? Quanto mais o mundo caminha para números surreais (atualmente, mais de 7 bilhões de humanos vivem, e bilhões mal ganham o suficiente para ficarem vivos), mais vamos puxando para o 00000000000.alguma coisa do lado direito da figura abaixo?

Doença da fala

Às vezes, quando chego em casa à noite, após interagir com outras pessoas, em particular no ambiente profissional (no meu caso, atuando como professor), sinto como se precisasse apagar tudo o que aconteceu durante o dia. É uma espécie de incômodo. Algumas vezes sinto como se não tivesse sido autêntico em minhas interações. Não disse o que gostaria de dizer. Ou então sinto como se não pertencesse de modo algum ao ambiente em que estive até chegar em casa. Como se aquele ambiente não fosse autêntico, como se muitas pessoas não fossem autênticas – ou, pior, podem até ser que sejam, o que torna a coisa ainda mais assustadora para mim. Talvez tenha a ver com certa aversão ao teatro que tenho, digo, essa teatralidade repleta de platitudes que outros dizem quando estão em grupo.

Fico agitado nesses casos. É como se algum tipo de harmonia do meu ser tivesse sido prejudicada. Já usei esta metáfora antes, mas agora o faço novamente com uma nova aplicação: é como se a água de uma poça (ou, se quiser, a superfície de um rio calmo e estável) tivesse sido agitada, e leva-se um tempo até que ela novamente volte à sua posição inicial.

Acredito que as pessoas possam adoecer pela palavra. Especialmente em profissões como a de professor, nas quais a matéria do trabalho é justamente a palavra. Não há a opção de ficar calado no seu canto: você é convocado a falar. Melhor, isso está implícito (ou ridiculamente explícito, na verdade) na natureza do próprio trabalho de professor. Há também o desgaste físico envolvido em falar o tempo todo, entre tantas outras auguras da vida docente, mas acho que o mais complicado mesmo é o desgaste mental.

Porém, ontem tive um pequeno insight, se posso dizer assim. Sempre interpretava minha sensação de mal-estar, da água em distúrbio da minha “poça mental”, como um defeito meu. Por ser às vezes um pouco obsessivo, é claro que fico repassando o que eu disse ao longo do dia, e julgando o que teria sido correto (impecável, no fundo) dizer. Provavelmente, outras pessoas com quem interagi sequer se lembrem de ter me ouvido falar, quando muito de avaliar o conteúdo do que eu disse! Mas, tirando isso, há algo mais elementar: a coerência entre o que falo e no que acredito de verdade.

Também acho razoável pensar que é praticamente impossível falarmos exatamente o que estamos sentindo ou no que acreditamos. Há sempre um desvio nisso aí. Porém, e este foi o pequeno insight, e seu eu primeiro descobrisse no que realmente acredito e, por um segundo, imaginasse um mundo real em que eu pudesse falar a partir desse lugar de quem acredita naquilo que está falando? Será que teria alguma crença fundamental a partir da qual estruturar a fala? Não parece tão simples. Até porque só descobrimos alguma coisa sobre nós, inclusive no que acreditamos, quando falamos! E também não é nada prático, tampouco saudável, ficar pensando e estruturando um discurso para falar, um que representasse fielmente o que acredito. Isso implicaria numa postura diante das outras pessoas em que estas devessem ser passivas e eu fazendo um monólogo unilateral (longe de mim essa postura; acho, inclusive, o contrário: interlocução descentralizada, mas desde que com pessoas genuinamente interessadas e, sobretudo, preparadas ou competentes).

E há ainda um complicador adicional. Profissionalmente, quando falo, não falo, em tese, de crenças pessoais, mas sim de um conhecimento que me transcende, isto é, que não é, propriamente, meu. Ninguém vai assistir uma aula… bom, ninguém em meu círculo de relações ou de experiências… por conta de que sou eu quem vai falar. O aluno sequer sabe qual será seu professor, ou tem muito pouca, se alguma, interferência na escolha do professor. Ele está lá para aprender sobre uma “matéria” da psicologia, no meu caso, psicologia do trabalho. Então, temos também essa possível diferença entre opiniões e fatos, entre teoria e crenças, e assim por diante. Mas não gostaria de complicar muito meu insight, se não ele vai acabar se perdendo.

Voltando ao que pensei: ainda dentro desse exercício mental livre, que mundo seria esse, ou melhor, o que me impede de estar nesse mundo, em que eu pudesse falar, de fato, no que acredito? Bom, talvez eu fosse rejeitado, processado, estigmatizado…talvez. Ou talvez eu fosse aceito, até mesmo acolhido, quem sabe até com alguma excentricidade… muito embora não se trate de nada fora do comum, mas simplesmente de dizer coisas que não se distanciem muito daquilo que eu acredito ser (digamos, meus valores ou expectativas).

Para ser honesto, tive esse insight assistindo ao meu comediante predileto (embora não seja muito culto em termos de comediantes), George Carlin. Eu assisto repetidas vezes (já perdi a conta) algumas das peças que ele apresenta em seus shows. Tem coisas que ele fala e que eu acredito com todo o meu ser. Mas tem coisas que ele diz (dizia, na verdade; ele teve uma carreira de uns 40 anos como comediante, mas faleceu em 2008) que hoje soariam muito, mas muito, controversas. Seja como for, o ponto que me atraiu foi de que a postura dele era a de alguém crítico da cultura de seu tempo. Aparentemente, ele não tinha um lado (político, por exemplo) em detrimento de outro. Ele passava a imagem de estar assistindo à distância. Para ser mais exato, ele costumava falar que havia comprado um ticket para o “freak show” que era a vida cotidiana (a cultura norte-americana de classe média) de seu tempo. Genial, absolutamente genial, e, pelo menos na aparência, indiferente à opinião das outras pessoas. Seria essa uma forma para existir: não acreditar no que se vê e, como resultado, usar de comédia e sátira para se posicionar diante do show de horrores da vida em grupo?

Bonus: um vídeo de George Carlin, dos poucos com legenda em português. Neste, ele discute algo um pouco diferente das “free floating hostilities” que ele costuma fazer em seus shows. Este é mais filosófico, por assim dizer. Para mim, impecável!