Não sou “marxista”, mas…

Não sou marxista, nunca fui e, honestamente, não sei o que significa ser um. Mas dia desses, ao navegar pela internet, fiquei com a impressão de que muita gente fala muita coisa sobre “pós-modernidade”, “sociedade do espetáculo”, “mundo veloz” e coisas do tipo como se não tivessem o menor contato com a vida “real”. Para falar a verdade, acho que, em grandes cidades, poucas pessoas têm contato com a vida “real”, o que lhes permite viver num aparente mundo-de-faz-de-conta. Lembro-me de uma vez ter lido um livro, creio que de Wanderley Codo, escrito na década de 1980, no qual ele discutia o porquê de as pessoas estarem, àquela época, se interessando cada vez mais por práticas de embelezamento corporal, especificamente sobre musculação, body building e coisas do gênero. Para Codo, em forte inspiração marxista, as pessoas, por não precisarem “usar” o corpo no trabalho – no sentido de trabalho corporal, braçal – tinham de fazê-lo em uma academia. O que, para um operário por exemplo, é intrínseco a seu próprio trabalho (“exercitar-se”, levantar sacos de cimento, pintar prédios, ficar o dia todo em um trabalho fisicamente extenuante etc….), para o indivíduo de escritório, a maioria em cidades organizadas em torno de serviços, o único “trabalho” sobre seu corpo ocorre na academia. Ali, além de “trabalhar sobre o corpo” – a palavra “trabalho”, nesse sentido, é até curiosa, pois não há efetivamente a produção de nada -, o indivíduo pode trabalhar sua imagem, melhor sua imagem, sua estética. Pois bem, a sensação que tive foi mais ou menos parecida: por que tanta gente escreve tanta coisa, fala sobre tanta coisa, sem nunca a ter vivenciado? Para mim, a resposta é simples: por que, privadas de um contato real, de fato empírico e experiencial, vivem em um tipo de simulacro de realidade, fantasiando, gastando horas e horas em perlaborações mentais puramente fictícias. Quer dizer, acho que a contrapartida de uma sociedade de serviços é uma situação na qual uma pequena parcela de pessoas (no caso do Brasil) fica, literalmente, divagando sem qualquer escrúpulo.


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