Autoconhecimento e sincronia

Estava pensando que o tal do ‘auto-conhecimento’ provém da experiência pessoal do manejo consigo próprio, nas mais variadas situações.

Por exemplo, em algum ponto do percurso da vida, você descobre uma espécie de ‘zona de segurança’ psicológica que diz, única e exclusivamente, respeito a você próprio.

Em tal zona, você consegue monitorar e sentir, tudo ao nível intuitivo, que não deve se meter em algumas situações afetivamente custosas.

Seria isso o que certa vez Freud identificou como um dos fundamentos do funcionamento psíquico, a tendência a manter o nível mais baixo possível de dispêndio de energia psíquica?

É verdade que ele falava de inconsciente. E de que, muitas vezes, falamos de um mero cálculo de custos e benefícios. Mas pense assim: se você sofre quando perde um cachorro de estimação, então por que, para começo de conversa, ter um cachorro?

Evitar a experiência, antecipando o que ela vai lhe consumir de energia, é, naturalmente, uma solução meia-boca, pois, afinal, no exemplo do cachorro, a despeito de um dia ele morrer, isso não apaga anos de agradável e intensa experiência afetiva com ele.

O cachorro é só um exemplo. Posso dar outros. Se você lida mal com o conflito interpessoal, então, evite situações em que você vai se expor – mesmo quando se é forçado a isso, em alguma medida, pelo fato de você ocupar algum papel que implique em confronto.

Mas o que isso significa? Significa, em alguma medida, fingir-se de morto? Ou desenvolver uma persona ‘paz-e-amor’, tornar-se alguém incapaz de envolver-se em um embate, em defender uma ideia polêmica? Fingir na frente da pessoa, falar pelas costas?

Também significa outra coisa. Significa que você se conhece minimamente e sabe como ‘modelizar’ suas características de modo a não se violentar em demasia no contexto. Se o preço disso é, no exemplo acima, ser percebido como mais passivo, que seja.

Nietzsche disse em algum lugar (talvez em Humano, demasiado humano) que certas poças de água, destas que ficam à beira da estrada, no alto de uma serra ou algum lugar assim, quando são atingidas por algum objeto (por menor que seja), levam algum tempo até ‘voltar ao normal’ – até acalmar as pequenas ondas d’água impulsionadas pelo objeto lançado. Quando essas ondas se dissipam, pronto!, a poça esta novamente no seu centro habitual.

Quando estamos no mundo, quando agimos nesse mundo (somos afetados e afetamos), por vezes demora um tempo até retornarmos ao nosso estado de equilíbrio habitual. Então, prosseguia Nietzsche, por que se meter em situações em que, corriqueiramente, seu equilíbrio é alterado? Ao preço do que? De uma frenética e por vezes irracional ‘pressão social’ para ser diferente, para mudar, como se o desenvolvimento psicológico, espiritual, social, humano, enfim, qualquer desenvolvimento, só viesse junto com alguma mudança? Ora, vivemos sob o jugo pesado do ‘fetiche da mudança’. Há uma associação quase natural e inquestionável entre mudança e alguma coisa positiva.

A metáfora de Nietzsche, penso, é algo na direção de dizer que o sujeito é quem ele deve ser, ou deve se tornar quem ele realmente deve se tornar (Ecce Homo). Alguém aí poderia dizer que isso é muito romântico, algo que cheira a idealismo alemão. Pode até ser. Estou realmente simplificando. Mas há também a possibilidade de essa intuição conter alguma verdade ética, no sentido de assumir que cada sujeito, cada ser, por mais intrinsecamente ‘social’ que ele seja (embora o ‘social’, na filosofia de Nietzsche, possa ter forte vinculação com a moral, com o ‘espírito de bando’ ou de boiada…), possui um centro de gravidade construído a duras penas, muitas vezes às expensas desse mesmo sujeito – lançando suas raízes no mundo insconsciente, na biografia de cada pessoa, etc. Por alguma razão que no momento desconheço, vivemos numa época histórica de crítica devastadora ao ‘eu’, por mais que muita gente denuncie o ‘ressentimento’ de nossa época, o fato de vivermos no auge do ‘narcisismo’ e do culto ao eu. Mas acho que é muito diferente falar em narcisismo e na possibilidade, fenomenológica e existencial, de ‘possuir um eu’, isto é, uma experiência interior. Na cultura da boiada, que, a meu ver, é, de fato, a cultura em que vivemos, ter um eu é sinônimo de fazer um selfie. Criticos arrogantes confundem essas duas coisas, e nos deixam numa situação de niilismo paralisante!

Hoje eu penso que não há, a princípio, um problema em você não conseguir certas coisas que apenas podem ser conseguidas na arena social. Primeiro, pois ninguém tem qualquer fórmula do sucesso (ah, seja assim ou assado que você vai, com certeza, dominar a gramática social, o gênero discursivo de determinado coletivo, etc., e, consequentemente, vai ser bem-sucedido afetiva e socialmente). Depois, porque ‘vencer’, em graus variados, consiste basicamente em aderir a um espírito de boiada, a identidades pret-à-porter, jeitos e formas de ser prescritas e instituídas. O sucesso é, no seu valor de face mais aparente, nada mais nada menos do que o ajuste fino e isomórfico às expectativas do Outro. Não estou, com isso, defendendo a primazia de alguma coisa vaga e incerta quanto um ‘sucesso subjetivo’, interior (do tipo ‘o que importa é a beleza interior’). Estou apenas dizendo que, se o preço de não ‘vencer’ na arena social é seu equilíbrio, então, bem, talvez se justifique o sacrifício.

Muitas vezes, a morte do ‘eu social’ é o único caminho para o reencontro com aquela ‘zona de segurança’ de que falei na abertura deste post. Quantos de nós queremos, ou mesmo podemos, perpretar essa ‘morte’…essa já é outra estória. O fato é que existe um nível de ‘qualidade de vida’ que só é experienciado nesse nível mais íntimo do eu consigo mesmo. E se você, por alguma razão, prefere, vamos dizer, perder a alma do que perder o brilho e o holofote, então, meu caro, boa sorte, pois sua vida será, em vida mesmo, um inferno!


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