Vontade de partir

O que nos faz enraizar num lugar? Talvez, considerando a história da humanidade, sejamos muito mais nômades do que criaturas sedentárias. O problema é que, nos assuntos humanos, o tempo, a insistência e a repetição têm um valor importante. Não dá para começar algo e logo interrompê-lo. A menos que abracemos a idéia de uma vida errática, sem trajetória fixa.

Acho que o homem (gênero), mais do que a mulher, tem sempre dentro de si o desejo de abandonar tudo, de deixar tudo para trás. Uma verdadeira utopia: em Passargada, seremos amigos do Rei… Em algum outro lugar nossa vida pode desabrochar mais do que neste em que estamos.

E por quê? Talvez porque não consigamos honrar desejos que achamos que tomamos em outro momento, no passado. Os desejos de hoje, realizados, parecem não deixar em você nenhuma sensação de identidade: eu quis isso? Eu fiz o que fiz porque queria estar onde estou? É às vezes difícil se conectar consigo mesmo no passado, exceto por um compromisso moral (assumi, cumpro).

Mas a mobilidade traz custos às vezes elevados. Além disso, ela depende de competência e de um “mercado” – não podemos nos dar ao luxo de ir embora para onde quisermos: é preciso haver emprego. E, junto deste, a reprodução da vida (comer, beber, morar, divertir-se). No passado brasileiro, um exemplo foi o fluxo migratório aqui do Nordeste para o Sudeste (hoje sendo invertido). As pessoas iam atrás de emprego. A mobilidade era colada à sobrevivência.

Há, apesar de tudo, um encanto sedutor, hipnótico, no desejo de mudança, de deixar o lugar em que se está. Ainda mais quando temos “vários mundos” em nosso espírito!

Para entender essa vontade de des-investir, de deixar tudo em nome de uma “nova vida”, um bom livro literário é Doutor Pasavento.


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