Trabalho e sentido

Há algum tempo um sentimento me percorre as veias. No início, achei que era mais uma das velhas e boas ‘projeções’ de coisas minhas ao meu redor. Algo comum, acho que todos o fazemos. Agora, porém, estou pensando diferente.

Cena 1: estava, dia desses, passando com o carro em uma avenida. O sinal fechou. Logo na esquina, havia um posto de gasolina. Então, vi vários ‘frentistas’ sentados, esperando algum carro chegar. A questão que me veio à cabeça: qual a diferença disso para uma prisão? Ficar sentado o dia todo, esperando, atendendo alguns clientes, sentando de novo, puxando alguma conversa com o colega, e sentar de novo e, talvez a essa altura sem perceber mais, acomodando os sentidos contra o pano de fundo de um barulho infernal das avenidas que cortam o tal posto?

Cena 2: ontem fui a um local comprar alguns produtos. O funcionário, visivelmente cansado, como já me conhece, puxou um rápido assunto: Está com pressa hoje, ele diz; Sim, confirmo. Eu estou aqui desde às 8h da manhã, não vejo a hora de ir embora, diz ele. Desta vez, porém, não me veio a imagem da prisão, mas, bizarramente, ou narcisicamente, pensei: eu não suportaria viver assim. De fato, pensei: o que seria da minha ‘saúde mental’, para usar um termo tão importante para psicólogos, se minha rotina cotidiana se resumisse a ficar atrás de um balcão atendendo, das 8h às 18h, incontáveis fregueses, fazendo praticamente as mesmas coisas? Embora não tenha me ocorrido, na pele, a ideia de prisão, agora, ao escrever, é disso que no fundo se trata, metaforicamente, de algum modo.

Corte.

Dia destes assisi o filme alemão Werk Ohne Autor. Consiste num belíssimo trabalho, de mais de 3h de duração, ambientado no antes e após a Segunda Guerra mundial, particularmente nas tensões entre a Alemanha ocidental e a oriental (após a guerra). O fio narrativo pelo qual os dois lados do muro eram escrutinados é a vida de um artista em ascensão. O filme começa em uma galeria, com o guia criticando os quadros que expunha: todos de Arte Moderna. Na alemanha comunista, a única arte ‘verdadeira’ era aquela capaz de exaltar o coletivo, o trabalhador genérico, a pátria. A Arte Moderna seria produto ‘capitalista’, uma aberração do Eu. Sem revelar os detalhes do filme, ocorre que, em um segundo momento, há uma inversão: a arte valorizada passa a ser a arte do Eu (com a fuga do artista para a Alemanha Ocidental), ou a Arte Contemporânea, quando, por exemplo, uma exposição com batatas torna-se digna de ser chamada ‘arte’, etc. Mas o que quero destacar é: de um lado, a crítica ao eu, e a ideia de uma arte cuja finalidade social seria, basicamente, enaltecer o trabalhador, essa figura representativa do coletivo; de outro, a arte ligada ao Eu, ao individualismo, à potência criativa de uma mente, de um gênio ‘empreendedor’, embora também pudesse estar voltada para questões concretas e coletivas.

O que isso tem a ver com os dois parágrafos anteriores? Fique pensando: no comunismo, ou pelo menos nesse recorte específico da ‘arte no comunismo’, o propósito parecia claro: dar ao trabalhador, pela via da arte (na qual ele era o personagem central), um senso de propósito, uma estética laboral, um sentido do porquê de ele, não raras vezes, dar sua vida pelo Estado, via trabalho (veja a narrativa belíssima contida na série Chernobil a esse propósito!). Na sociedade contemporânea, “Ocidental”, capitalista, o que a arte diz para o trabalhador do posto de gasolina ou do empório que descrevi a pouco? Absolutamente nada. Então, a questão central: o que motiva, se é que existe algo que o faça, o indivíduo a se ‘sujeitar’ àquelas condições?

Nossa realidade brasileira, particularmente daqui onde escrevo e vivo, é tão surreal que a questão talvez nem faça sentido.

Corte.

Li hoje uma matéria do New York Magazine sobre a empresa WeWork, fundada por um rapaz chamado Adam Neumann. Trata-se de uma empresa cujo negócio é prover espaços ‘inteligentes’ de trabalho para ‘empreendedores’. A ‘filosofia’ da empresa, instilada por seu fundador, é de que, por meio de suas novas ideias, ela vai ‘mudar o mundo’ (sic). Pelo discurso, trabalhar em tal empresa não é meramente um ‘emprego’ (como é o caso de 99% das pessoas da cidade onde moro no momento, arrisco dizer), mas uma ‘missão’, algo para gente realmente visionária e empreendedora, que sai à luta par ganhar seu espaço ao sol (um mantra de Neumann é: Só vale o que você sai para caçar!). Não oferecem meramente salas para sublocação com alguns serviços inclusos (esse é, de fato, o business da empresa); oferecem uma ‘nova visão de sociedade’, um novo ‘sentido de trabalho’, uma nova filosofia de conquista. Não se trata, obviamente, de uma ‘arte’, mas é como se correspondesse a seu objetivo, oferecendo ao trabalhador uma narrativa pela qual ele acorda de manhã e passa não menos do que 14 horas no trabalho.

Então, chego ao ponto nevrálgico: o que sustenta a motivação de uma pessoa no trabalho? Não quero cometer injustiças aqui, mas uma resposta muito comum dada a esta questão é brutalmente simplista. As pessoas trabalham, no nivel micro, para se desenvolver; essa seria a visão mais ‘burguesa’, por assim dizer (pois, de fato, não me parece que os frentistas do meu posto, ou o atendente do meu empório estavam ‘se desenvolvendo’ em nenhum aspecto, pelo contrário: estavam com o semblante do presidiário). Outra é de que precisam sobreviver. Esta é a resposta do ‘analista crítico’ de plantão. Óbvio que a grande maioria trabalha porque basicamente tem um corpo; sim, um corpo: tem necessidades, e também tem outros corpos para alimentar. E não tem nada mais a fazer senão ‘vender’ sua (brutalmente substituível) força de trabalho. Poderia emendar, usando uma bela metáfora de Agambem: eles têm um ‘corpo nu’, e nada mais.

Em não havendo a ‘revolução’; em não havendo, seja uma arte comunista (veja o filme) que pavimente um caminho (uma ‘boa ideologia’) para justificar o tempo perdido pelas pessoas em trabalhos massacrantes, nem uma narrativa empreendedora de empresa ‘new age’ como a WeWork (afinal, ela não é brasileira e, mesmo que fosse, não seria para todo mundo), o que resta? Criar pequenos projetos, quase de sobrevivência mental, do tipo “Trabalho para sustentar minha família”? Ou algo surreal e absurdo do tipo: “Trabalho neste posto de gasolina, como frentista, para contribuir com o desenvolvimento do Brasil, na medida em que ajudo pessoas a se manterem em movimento com seus carros?”. E se chegássemos à conclusão de que, por mais que preferíssemos o contrário, não haverá nenhum sentido, e o tempo para essas pessoas vai passar e escorrer, vão perder sua saúde nesses trabalhos, e o máximo que conseguirão é manter seus corpos, e de seus agregados, minimamente ‘vivos’? Em se admitindo isso, e não pretendendo ficar num cinismo realista, como pensar a relação trabalho e significado? Que ‘significado’ haveria de ser esse que não consegue ir além do corpo, ou, quando muito, de alguma narrativa ‘hight tech’ cujo propósito, antes de criar algo para a sociedade, é o de enriquecer seus proprietários (a tal WeWork vale, no momento, bilhões de dólares, e paga miseravelmente seus funcionários)?

Não tenho resposta para isso, até porque é neste ponto em que estou me debruçando para pensar um plano de ação (um projeto de pesquisa, basicamente…tudo começa assim em nossa profissão [pesquisadores], certo?). Mas me parece que uma reorganização dos estudos sobre sentido do trabalho poderiam se beneficiar de uma articulação melhor, não com os ‘estados psicológicos’ e seus níveis de impacto pelo trabalho (desenvolvimento, etc.), mas, sobretudo, com as conexões entre o sentido ‘micro’ e o ‘macro’, especialmente num Brasil completamente sem narrativa agregadora (não temos a narrativa do capitalismo, como nos EUA, nem tampouco a narrativa de uma pátria ‘engrandecida’, como os países da Europa ainda sustentam, por osmose ou inércia, de seu passado).


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