Pedro

Essa é uma página que espero manter sempre atualizada… afinal, não somos a mesma pessoa todos os dias, em todas as voltas da Terra em torno do Sol.

Sou um cético. Um niilista às portas do negativismo paralisante. Mas, paradoxalmente, uma força me impulsiona, me move num ritmo cego, catatônico, como um músculo com contrações involuntárias. Sigo. E sigo, reclamando, num caminho que não pedi para estar. Mas também não pedi para não estar. Vamos ver até onde a bagaça vai dar.

De fato, brasileiro. De direito, italiano. Dupla cidadania. Ligado pelo fio da geração Bendazzoli (abrasileirizado Bendassolli). O fato de poder recorrer, imaginariamente, a duas nações para ancorar minha identidade me dá uma sensação indescritível. Menos por pertencer a um lugar em detrimento do outro, mas por, ao pertencer a dois, não ser de nenhum.

Meu personagem ideal: o escrivão Bartleby, mais como desejo do que como crença na viabilidade prática de seu modo de vida, a menos que às custas da própria vida.

No momento, professor, pois não saberia, honestamente, fazer outra coisa. Não por pura vocação, mas por falta de talento. Ou pelo fato de ter investido em uma direção, em detrimento de infinitas outras. Mas a vida não seria, em algum grau, abrir mão da vida possível (‘could be’) em benefício da vida possibilitada (‘actual life’)?

Em algum lugar eu li que o ‘indivíduo’ não pode ser dissociado de seu predicado. Não há sujeito sem predicado. Então, sou o que fiz. Isso é o que se diria à primeira vista. Mas nada me define melhor hoje do que aquilo que não fiz, ou deixei de fazer, ou fiz para não fazer o que deveria ser feito. E o inconsciente como repetição do mesmo a me lembrar de que o que sou é pouco. O que não sou me define mais do que o predicado já fixado em mim. Causalmente fixado a mim. Eu como causa dele, ele como extensão minha. Até quando vou viver pensando no que eu não vivi ou no que eu deveria viver?

A maoria das pessoas têm um currículo, no qual, retrospectivamente, ‘provam’ a relação do que fizeram com o que elas são. Mas, e se você, como diria Husserl, tentar pôr em suspensão tudo isso que você fez, tudo isso que você pensa e que você acha que o define, que o tangibiliza, o externaliza? A suspensão (épochè) nos levaria “de volta” para onde? Ou para o vazio, ou para os objetos de nossa experiência, de nossa intencionalidade, àquele momento em que ambos se tornaram vinculados pela experiência rememorada, resgatada. A maioria, eu disse. No meu caso, sinto que tenho um “currículo futuro”, o currículo de coisas que eu deveria fazer no futuro. Por vezes, quanto a esse último aspecto, sinto como se minha vida fosse julgada do futuro para o passado…

O problema: o tempo da experiência, o tempo da experiência espontânea e pura (Husserl), e o tempo cósmico, a dimensão espaço-tempo que, sempre, conduz a um desencaixe. E isso, aprendi recentemente (2017), é o que tira meu sono: sentir que, caso eu queira mudar minha vida, eu não conseguiria. Nesse momento, é como se, de repente, você acordasse…PRESO NO PRESENTE para SEMPRE.

Hoje (2024) é precisamente essa minha visão do que seria o inferno, caso este exista: o inferno é ficar congelado em algo que você odeia. Imagine algo insuportável para você, e então se veja nisso pela eternidade. Não consigo pensar em nada mais aterrorizante. Estou mais ou menos na mesma situação dos personagens de Esperando Godot, de Samuel Beckett. Espero por algo. Antes, esse algo tinha algum conteúdo. Agora, espero por esperar. Comecei a ver minha vida como um resto a percorrer. Sei que há arrogância nisso, ou medo, mas ajo como se já tivesse visto tudo. Claro que, conscientemente, sei que não vi tudo, longe disso. Mas afinal o que importa na prática são meus olhos subjetivos, o modo como de fato acredito ver as coisas. E, meio resignado, sigo esperando a ampulheta esvaziar, e então a viro para o outro lado, e espero esse outro lado esvaziar também, e assim sucessivamente. Só olhando para a areia que se dispersa de um lado para o outro. Poucos encantamentos, sortidos aqui e ali entre um breve (mas encantador) pico de sentido e um longuíssimo vale de banalidades repetitivas.

Acreditava que rompantes de novidades me tirariam dessa situação. Já não acredito mais nisso. Por um lado, isso é bom, pois posso estar menos iludido com respeito a soluções mágicas, garrafas com segredos reveladores lançadas ao mar e que, por pura sorte, eu viesse a encontrar quando estivesse caminhando pelas margens de uma praia distante. Por outro lado, trata-se de uma vida sem encantamentos, esmagada sob o peso de uma certeza indiscutível quanto a seu absurdo e aridez. No fundo, produzir sentido é uma aventura que requer muita coragem, e, como diria Kierkegaard, pular, saltar, jogar-se sem quaisquer garantias…no final, pode-se descobrir que o salto resultou num mergulho no abismo, mas também há a possibilidade de ele me ter lançado sobre o paraíso. Mas o inferno parece mais certo, ou assim quero acreditar, tamanha minha obsessão metafísica pela certeza, ainda que certeza do pior. Não lembro se há um lugar no Inferno de Dante para os covardes. Se houver, ali parece estar meu lugar, pois encontrei a dor reconfortante da metafísica da covardia ao caminhar pelos vales da aridez.


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