Renúncia

Bento 16 anunciou sua renúncia ao pontificado. Para os mais de 1 bilhão de cristãos espalhados pelo mundo, surpresa: decerto, ninguém imaginava que um papa pudesse, tivesse a audácia, de abdicar de sua posição – a que pouquíssimos ao longo da história da Igreja alcançaram.

glamour da notícia tem a ver, é claro, com o fato de se tratar de um papa. Porém, todos os dias, mundo afora, pessoas renunciam, abrem mão de algo a que consideram importante e valoroso. A renúncia tem a ver precisamente com isso: com deixar algo que se considera importante. Em tese, ninguém renuncia o que gera desprazer, dor, sofrimento.

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A renúncia tem a ver com um sujeito que se afirma, que escolhe; a renúncia pressupõe a liberdade, a autonomia. Uma relação entre a pessoa e o papel que desempenha. Foi Ratzinger que renunciou Bento 16. Pode tê-lo feito, como alguns analistas sugerem, para assegurar a permanência da centro-direita no comando da Igreja. Mas como renunciar ao que Deus nos legou como missão? Assumindo nossa fraqueza, nossa pequenez, nossa incapacidade? Mas, ao nos escolher, Deus já não sabia disso? Jesus não teria escolhido Pedro justamente por isso, por sua fraqueza, sua personalidade titubeante?

O ato de Ratziger me fez pensar no por que de nossas renúncias. Pois, como disse, não renunciamos o sofrimento, mas o prazer. Pois até conseguimos pensar no porquê de certas escolhas que fazemos (quero certa carreira para ter dinheiro; escolho casar porque amo…); mas qual o porquê da renúncia, do deixar para trás?

1) Renúncia como ato de auto-aniquilamento. Ratzinger, com seu gesto, mostra que papas podem, perante o mundo, assumir suas limitações, chamando a responsabilidade de outros mais “preparados”; mostra, ainda, que até mesmo missão dada por Deus pode ser “revista” (a misericórdia de Deus aceitando nosso lado “humano”). Com isso, Ratzinger assume-se menor que Bento 16. Abre espaço para outros, para um outro movimento histórico (a Igreja é maior que Ratzinger…);

2) Renúncia como recomeço: deixo tudo o que tenho para trás para recomeçar uma vida nova, em novo patamar. Veja-se o caso da renúncia de S. Francisco de Assis: renúncia à “vida terrena” em nome da vida eterna, a vida do espírito. De acordo com o que lemos na mídia, Ratzinger, após deixar o pontificado, vai “recolher-se” em oração num mosteiro no interior do Vaticano, “desaparecendo” da vida pública. A renúncia de um estado de coisas nos dá a possibilidade de reorganizar nossa vida;

3) Renúncia como um tipo de negação da vida. O estado máximo de renúncia é a própria morte. Pois, ao longo de nossa vida, vamos acumulando coisas ao nosso redor; renunciar a estas coisas é diminuir o peso dos próprios investimentos que fazemos na realidade. Renunciar simplifica a vida. O extremo da renúncia é quando abrimos mão de nossa própria vida. Ainda no terreno religioso, falamos dos mártires…

Não posso esconder que fiquei perplexo com a decisão de Ratzinger. Ao mesmo tempo, ela me inspirou a pensar – e o que pensei não se limita a isto que escrevi aqui. Por um breve instante, quero esquecer tudo o que li a respeito do episódio e, principalmente, as versões mais “inteligentes” de analistas, que buscam as “estratégias” ocultas, políticas, etc., levadas em conta por Ratzinger. Se calarmos por um instante essas vozes “savantes”, podemos pensar em muitas outras possibilidades de interpretar e aceitar o que fez Bento 16.