Para os espíritos sensíveis

Fui conduzido hoje, ao ler um post em outro blog, a esta tela de Pieter Bruegel (1525-1569), “O triunfo da morte” (1562).

Se não me engano, Freud, quando fala de pulsão de vida e pulsão de morte, mostra como ambas constituem um par tenso, mas sempre me fica a dúvida sobre qual, no final, acaba vencendo.

Claro que, do ponto de vista filogenético de nossa espécie, a vida vai mostrando que consegue ir bem longe. É no plano ontogenético que o dilema da morte se coloca porque ela diz respeito à extinção do indivíduo: minha espécie não morre (a menos que haja alguma cisão no processo de evolução natural, e nossa espécie revele-se inadaptada ao meio para continuar a sobreviver, ou então se o próprio planeta se extinguir); quem morre sou eu na qualidade de um exemplar (singular) da espécie.

O grande dilema, portanto, é sentir que envelhecemos e, ao mesmo tempo, notar que crianças continuam nascendo e que a juventude transborda a nosso redor. Sempre achei impressionante como esse desencontro de gerações faz com que nos esqueçamos, a todo instante, de que nossa espécie, como um “ser genérico”, é completamente indiferente a nós indivíduos/organismos singulares.

O dilema em questão parece ser agravado pelas características de minha ocupação (professor): o educador sempre vai envelhecendo e nunca se iguala ao educando (na média, pelo menos). O educador envelhece; o educando, por ser, a cada semestre/ano, diferente, sempre é jovem. Assiste-se, na rotina cotidiana de uma escola/universidade, o descompasso radical entre a filogênese anônima da espécie, malthusiana, e a ontogênese de indivíduos jovens, à exceção de um.


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