Os pobres das Américas

Hoje li duas pequenas notas que me chamaram a atenção. A primeira, do Brasil, é sobre uma estatística absurda relacionada à demissão de pessoas no país. Ao redor de 42 milhões de brasileiros foram demitidos sem justa causa nos últimos quatro anos e meio (sobre 73 milhões de demissões). O ministro do trabalho diz que isso tem a ver com a falta de qualificação do trabalhador: os patrões demitem porque precisam de gente mais preparada para realizar as atividades.

Não entendo de economia, mas quando esse número de pessoas são demitidas, e quando, ao mesmo tempo, as taxas de desemprego são relativamente baixas, isso significa que há uma elevada rotatividade: a pessoa não fica muito tempo no mesmo emprego. Também não é dito em que nível isso ocorre, mas tenho a impressão que é na chamada base da pirâmide, com os trabalhadores de menor instrução. Obviamente, há também o desemprego de colarinho branco, mas alta mobilidade em massa só pode ocorrer entre a força de trabalho mais vulnerável.

Como psicólogo organizacional, me pergunto se há alguma novidade nisso – pelo menos se considerarmos a velha máxima do “exército de reserva”, de Marx. Além disso, maior mobilidade também pode indicar aquecimento econômico e maior facilidade para o trabalhador encontrar empregos mais interessantes para sua vida (que pague um pouco mais, por exemplo). Em suma, podemos relativizar esse número impressionante de demissões. Porém, talvez seja igualmente interessante se perguntar o que está se passando nas relações de trabalho, mais particularmente nos processos de gestão, para alimentar essa cifra. Teria o trabalho perdido seu significado subjetivo, e estariam empregadores (e, quem sabe?) e empregados se desfazendo de seus vínculos como se troca de roupa?

Outra notícia que li vem dos EUA. Uma imensa massa anônima, auto-intitulada de os 99% da América, está postando na Internet declarações que vão desde um espírito anti-Wall Street até algo que lembra muito a filosofia dos Alcoólatras Anônimos misturado com certa auto-exposição vitimizante. Veja aqui uma tradução do texto em que tais 99% se definem. Aqui no Brasil, lembro-me de ter visto algo similar (embora em muitíssimo menor escala): a pessoa desempregada tentando chamar de alguma forma a atenção. Nos EUA, dentro de seu individualismo cultural de massa, o átomo (indivíduo) se junta a uma infinidade de outros para gerar alguma reação no plano público. Lá, talvez a tentativa chame realmente a atenção (Sociedade do Espetáculo?); aqui, acho difícil, pois todos os dias assistimos pedintes pelas ruas, entregues à sua própria sorte, e duvido que nos sensibilizemos em massa. Sozinhos, vamos vivendo os dramas diários de “empregadinhos” facilmente descartáveis. Isso é tão dramático que nem sei como concluir este texto (a não ser assim: de forma abrupta).


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