Manifesto pelo catolicismo/cristianismo

papa-franciscoA versão “savante” (expert) é de que o catolicismo só se alavancou graças ao apoio de Constantino, numa Roma em decadência. E, segundo essa mesma versão esperta, ainda hoje o catolicismo estaria associado ao poder, ao que há de mais conservador, ao retrocesso da sociedade. Estados “laicos” deveriam afastar-se da religião, do catolicismo, no caso de desejarem ser avançados. O Estado tem de ser superior a uma religião. Sempre cito a França como exemplo: a República é superior a qualquer religião.

Não devemos pensar com a cabeça contemporânea. Por um motivo: o contemporâneo é volátil. Ele acaba. Acreditar no contemporâneo é a mesma coisa que acreditar que a Terra se resume ao que os olhos podem ver.

Quem critica o catolicismo confunde a Igreja, como organização, com a Igreja como uma entidade milenar, que remonta aos primeiros cristãos e às suas vidas nada “glamurosas”. O cristianismo é superior à Igreja, mas esta o incorpora. O cristianismo provoca, ou deveria provocar, um imenso, estrutural e constituinte desconforto: um desencontro entre o presente e o passado, ou entre o eterno e o efêmero.

O efêmero é Cabral e Paes, governador e prefeito. Mesmo a presidente. Mesmo alguns rostos vistos com insistência ao lado de Francisco, como rostos da Arquidiocese do RJ. Até o próprio Francisco é efêmero, mas isso não importa, ao menos não no caso de Francisco. Há, nele, no papa, um encontro arquetípico do individual e do universal, do efêmero e do eterno.

Revistas e jornalistas filisteus questionam o porquê de um evento religioso “católico” ocupar tanto espaço e tempo  na mídia. Esqueça a mídia. Pense no evento. Esqueça os milhões que foram gastos na sua realização. Pense no simbólico. Aí é que está: o simbólico contém algo de transcendental. Ele não fica preso no pequeno, no “como, operacionalmente, tudo foi possível”. Nem política, nem logisticamente. O simbólico é transcendente. E, para mim, como algo transcendente, o catolicismo é imbatível. Ele nos lembra que tudo isso é provisório, arranjo momentâneo de interesses pequenos, de gente pequena, esperta, “fake”.

Para mim, a Igreja tem um poder imenso, e tal poder não se restringe, como dizem os desentendidos, ao tamanho dos ativos do banco do Vaticano ou então ao patrimônio. Tudo isso, apesar de factível, mistura as coisas. Mistura grandezas diferentes. Pensa o eterno com um vocabulário teórico, datado, volátil. As pessoas, principalmente as que podem ser ouvidas (mídia), muitas vezes não sabem o que falam. Não entendem. São modernas ou pós-modernas demais. Ventrílocos. Oportunistas.

O poder da Igreja vem, justamente, da sua soberania em relação ao poder instituído. No nosso caso, da soberania, ainda que elegante e discreta, de Francisco em relação à Dilma e sua tentativa de capitalizar a visita do pontífice. Se a Igreja, ela própria, é um poder instituído, aí temos outra história. Julgar a Igreja pela linguagem contemporânea é um absurdo: Igreja, para os imbecis, é escândalo de padres e corrupção na Cúria. Esses filisteus não entendem absolutamente nada. Julgam a Igreja com os termos atuais. No passado, outros foram usados. O tempo passa…

O poder da Igreja vem do poder de um papa reunir milhões de pessoas, e de poder, sob certa medida, dizer o que quer dizer. Os cristãos originais, primitivos, como se diz, sempre souberam se comunicar de modo a contornar o código dominante. O que Francisco está dizendo, sim, é condicionado por si e pelo nível intelectual e de expertise religiosa de sua equipe de assessores. Mas há algo mais. Ele está dizendo algo antigo. E, no meu modo de ver, é o antigo que, ao estar presente no aqui-e-agora, gera uma angústia, um deslocamento, um desencaixe. Incomoda.