Mal-estar na civilização do trabalho

Tivemos, na manhã de ontem, uma mesa-redonda inspirada pela discussão da obra Mal-estar na Civilização, de S. Freud. A disparadora da discussão foi a psicanalista Ruth Jeunon, em resposta a quem o prof. Jorge Falcão e eu reagimos: no meu caso, explorando o porquê de o trabalho ser visto de modo tão restritivo na obra freudiana em questão:

1. Como poïésis – ou seja, com produção de coisas úteis (muito próximo do sentido de labour, tal como discutido por H. Arendt)

2. Como via de sublimação, porém (e esse é o detalhe), reservado a poucos homens, os Grandes Homens, tais como pessoas das artes ou das ciências.

Nossa provocação foi no sentido de questionar as possibilidades de se ampliar o raio da sublimação a partir de um olhar mais inclusivo sobre o que constitui o trabalho:

1. Como “opus” – ou seja, obra de arte

2. Como “trabalho psíquico”, trabalho sobre si, usando o termo Arbeit da obra freudiana: na medida em que o trabalho nos confronta com o “real” (no caso, com aquilo que nos escapa, com o “indizível que precisa ser, não obstante, dito”), ele nos convoca a desenvolver recursos de enfrentamento.

No final, nossa discussão encaminhou-se para a questão do julgamento de beleza e utilidade implicados no trabalhar, via reconhecimento do outro. O trabalho é, ao mesmo tempo, labour, opus e arbeit – ele liga o sujeito à realidade, aos outros e “devolve”, por meio desse mesmo processo, uma imagem sobre quem somos (identidade).

Uma manhã muito instigante e que nos deixou a todos com desejo de “quero mais”, além de ter deixado importantes questões no ar, como, entre outras, se é possível fazer psicologia do trabalho no “diálogo” com a psicanálise.


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