Lapsos obtusos (2)

(…continuidade do post anterior)

E) O domínio do código linguístico dá-lhe muito poder. Veja esta articulação de letras que estou fazendo. Considere o ‘contexto’ em que ela ocorre (ambiente virtual). Suponhamos que eu tivesse algum tipo de clarividência ou talento para articular esses caracteres de um modo superiormente criativo, diferente. Em algum ponto, por exemplo, alguma ’empresa de conteúdo’ poderia querer me contratar. Por quê? Porque eu saberia articular o código.

e.1. Claro, eles poderiam me ‘contratar’ porque tenho amizade com algum dono de ’empresa de conteúdo’, ou porque, de algum modo, o conteúdo do que escrevo fosse atrair clientes e, claro, dinheiro. Não há clientes, nunca; há dinheiro.

e.2. Mas será que vivemos, genuinamente, num contexto em que ’empresas de conteúdo’ contratam pessoas e serviços por conta…do ‘conteúdo’? Difícil dizer. Algumas, talvez sim;

e.3. Mas o ponto que quero dizer é que dominar a linguagem (ou UMA linguagem) é o começo da aquisição de poder. Se você olhar o que você escreve como fonte de poder, você vai entender que o que você escreve (ainda mais se você for professor-pesquisador-“autor”) pode estar do lado da ação, e não da reação – ou seja, você pode, com o que escreve, realmente inscrever algo na realidade. Mas, para mim, o mais importante é:

*) O que o outro te diz (como texto ou não) é algo arbitrário; a diferença de uma pessoa ‘proficiente’ e de outra que não é consiste em que a que é consegue sintonizar um determinado ‘espírito de época’ (ou de grupo);

**) Se o que o outro te diz é algo arbitrário, então você tem certa autonomia, como ser-no-mundo (sujeito), de contrapor um código ao outro. Se um parecerista, por exemplo (no mundo acadêmico) lhe diz algo, a única diferença entre ele e você é que ele aprova ou não seu artigo; de seu lado, você pode fazer a letra dele valer tão ‘nada’ quanto a sua! Ou: o que o outro te diz tem quase o ‘mesmo valor’ do que aquilo que você diz. Então, por que há diferenças entre ‘textos/pessoas’? Pense…

F) Você pode ser ‘influente’ (sentir-se ‘autor’) em alguns contextos específicos (o imbecil do professor, ‘doutor e concursado’ que acha, por conta disso, que é ‘alguém’, pode simplesmente ‘se fazer de difícil’ em ambientes restritos como uma sala de aula). Há uma espécie de micro-sociologia do poder. Cada ambiente, por mais sem ar que ele seja, é uma ‘esfera’, onde ali vive e ‘prospera’ uma pequena colônia de seres. O problema é que, mesmo com o blá-blá-blá do mundo interconectado, cada um vive em esferas, as quais variam de diâmetro uma das outras – mas são todas, no fundo, pequenas.

f.1. Exemplo: um homem agressivo, troglodita, pode fazer da casa (esposa + filhos + animais) sua ‘esfera’ e sentir que ali, nesse espaço restrito, ele é ‘alguém’: pode mandar e desmandar, pode humilhar e pode ‘promover’. No trabalho, ele pode ser um verdadeiro “inútil”, desprezado por todos os colegas;

f.2. Espaços privados como esses tendem a assumir grande relevância quando a vida social é esvaziada. Quando o troglodita acima vai ao espaço social mais amplo, ele recua como um cachorro com o rabo-entre-as-pernas;

f.3. Outro exemplo: o professor que usa de seu ‘poderzinho’ para fazer alunos vulneráveis fazerem o que ele acha ‘científico’: aplicar questionários, transcrever entrevistas, ler o artigo dele (professor), e sem contra-partidas pedagógicas, e assim por diante;

f.4. Um exemplo final, sem conclusão: os ditos ‘anões’ ou ‘nanicos’ nas campanhas eleitorais: quem são eles? Moro num Estado pequeno; vi mais de 400 candidatos a deputado estadual/federal. Ora, por acaso eles acham que a ‘casinha’ deles, onde eles mandam com voz grossa e ar empolado, é a minha?

>>> Gregos, vocês tinham razão: a economia deveria ser algo do privado, da casa. Um desastre quando os pequenos ‘deuses de 3 súditos’ inventam achar que são alguma coisa na vida ‘além-esfera’ da cazinha deles…


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