Interlocução com inimigo imaginário

Você, você me irrita quando sugere, sem perceber, que o que eu estudo é algo que não leva a nada. Sim, você me confronta com o direito de viver quando, simplesmente, dirige suas perguntas intelectuais. Está certo que, ao fazê-lo, seu rosto adquire um ar de intelectual. Você já se viu no espelho, você já teve a oportunidade de perceber que, ao achar que está sendo intelectual, você se transforma, se parece com alguém que perdeu um parente próximo, uma boca a anunciar uma notícia fúnebre? Não vejo alegria em você quando você tenta ser um intelectual. Mas há mais. Muito mais. Você, você só se interessa por aquilo que, nas escrituras da vida social, se enuncia como insígnas do bem-sucedido. Você muda quando há algum prêmio no ar, mesmo que tal prêmio jamais tenha qualquer vestígio de grana. Não importa. O que você busca é a certeza, a garantia de que, se a maoria valoriza algo, esse algo é importante. Tem mais. Você diz que gosta de crítica, mas você não gosta. Você manda “bater no peito”, pois você aguenta. Mas não, não é bem assim. Você é profundamente inseguro. Você não sabe o que está fazendo na cadeira onde está sentado. Você, aproveitando de uma atividade que exige autoria, você acha que tem algo de importante a dizer. Você é, no fundo, um grande narcisista. Um narcisista não é alguém que se olha e se perde no espelho. É alguém cujo ego é profundamente vulnerável. Você não consegue, sequer por um único segundo, esquecer-se. Você não consegue simplesmente fazer as coisas, deixar-se no fluxo da atividade: você é uma chaga aberta, uma questão irrespondível que algum adulto, no passado, lançou – ou seja, você é, no fundo, a carne que anima um fantasma inspirado por outro (seu pai, sua mãe, qualquer um que, um dia, tenha sido importante para você). E o que você quer? Você quer voltar para a casa de seu pai e sua mãe. E tem mais. Você não sabe se ouvir. Você é alguém que se repete demais. Você já percebeu o quanto você se repete, o quando diz a mesma coisa, quando muito, com uma singela variação do mesmo? Não, decerto você não percebeu isso. Nunca perceberá. O que lhe move? O que lhe motiva? O prêmio. Qual prêmio? Nem você sabe, mas a verdade é que você é uma pessoa prêmio-orientada. Você gosta de qualquer coisa pronunciada em francês ou inglês. Se alguém tiver nascido acima dos trópicos, pronto!, isso já será suficiente para chamar sua atenção. Você é um grávido sem filho. Barriga vazia. Esperando, esperando… esperando a caravela aparecer no horizonte e lhe trazer o estrangeiro. Só que ele não pode falar português, é claro. Não pode. E digo mais. Você, quando eu falo de alguém, quando eu falo do cabelo de alguém, você acha que não é sobre você, que você, não, você tem o cabelo perfeito. Você me faz querer fugir para a lua. Você já pensou em fugir para a lua? Não? Pois pense. Você nunca diz o que realmente quer. Talvez você seja um supersticioso; ou talvez você seja alguém que convive com pessoas como eu apenas para cumprir o que lhe é exigido no trabalho; mas, no fundo, você convive, na sua mente, no seu horizonte, com super-homens – não, veja, isso é importante!, não os super-homens, os dândi, de tipo nietzschiano, mas com fantoches divinizados, pessoas superiores pertencentes a nichos dos quais, claramente, você não faz parte, mas que gostaria muito. Você só se move como uma mariposa em direção à luz do poder. De novo, não o poder do autor de “A vontade de poder”, mas o poder capaz de esconder sua inabilidade para ir além de frases “criativamente” montadas. Você é um especialista em falar do que não vive. Pois é. Você. Como há coisas sobre você…Eu gostaria de gritar, de berrar, de falar bem alto tudo sobre você. Para piorar, se houver um grupo, um amontoado de “você”, eu consigo ficar louco. Mas, para meu infortúnio, meu infortúnio, você é um coletivo…Sinceramente? Eu acho melhor analisar essa orda de “vocês” pela perspectiva behaviorista; sim, comportamentalismo. O resto, o tal do “simbólico”, sabe o que é? É labirinto. Fantasia. Gente precisando falar, preencher o espaço oco com palavras igualmente ocas.


You cannot copy content of this page