Grupo de referência: miopia necessária?

Uma rápida reflexão, de passagem mesmo, sobre a importância, por vezes implícita, de nossos grupos de referência. Um grupo dessa natureza é, segundo a psicologia, aquele a cujos padrões recorremos para medir nossas próprias conquistas, nosso próprio comportamento, também nossos ideais (valorizamos aquilo que nosso grupo de referência valoriza). Contrariamente, tememos ou desmerecemos aquilo que nosso grupo de referência desmerece ou não valoriza.

Um grupo de referência está ligado à nossa socialização primária – não se refere à “sociedade” mais amplamente falando. Conhecemos as pessoas de nosso grupo de referência, muitas vezes convivemos, no dia-a-dia, com elas. Um exemplo pode ocorrer no trabalho: as pessoas com quem trabalhamos por vezes tornam-se nosso grupo de referência, mas pode também ser nossos amigos, acho que até mesmo nossos familiares.

Se, em meu grupo de referência, as pessoas valorizam certos “outputs”, a tendência é que eu também o faça. Existe certa pressão de grupo para isso, mas também certa identificação de nossa própria parte: voluntariamente, digamos, nós aspiramos coisas semelhantes, e, mais importante, nos comparamos – eis aí um mecanismo psicológico-chave na nossa relação com nossos grupos de referência! Esse mecanismo tem um efeito interessante: ele faz com que nós e nosso grupo de referência nos tornemos, ao mesmo tempo, similares e diferentes. Seria mais ou menos a mesma coisa que acontece em nosso processo de constituição identitária – somos iguais/semelhantes a certas pessoas, e diferentes de outras.

Em situações de ambiguidade, tendemos, mais do que habitualmente, a recorrer à visão, à métrica, oferecida por nosso grupo de referência (ou aquela que imaginamos/percebemos).

Bom, eu disse tudo isso para completar agora: ao mesmo tempo em que é importante se fixar em certos padrões de grupos de referência, a certas balizas, especialmente afetivas, representadas por esses grupos, também representam um risco à individualidade. Nesse sentido, sigo aprofundando meu post anterior, no qual discuto a “incapacidade de ficar só”. Pois grupos de referência, além de instáveis, podem nos desviar de nossos próprios projetos.

Nos grupos de referência, ao sermos acolhidos ou ao nos espelharmos, visamos a algum tipo de reconhecimento. Porém, grande projetos de vida nascem do interior, nascem da solidão interior: eles miram paisagens mais distantes; desejam altitudes mais elevadas, onde o ar é mais rarefeito e onde não há muitas outras “formas de vida” em que se inspirar. Esse mergulho interior é, na verdade, uma reelaboração criativa do que recebemos do mundo.

Claro que tal projeto não “nasce da cabeça” do indivíduo; mas há uma certa dinâmica, segundo a qual, do mergulho em si, e da visada beyond ou au-delà de nossos grupos de referência, nascem obras significativas para si e para o mundo. Só para fechar com um exemplo de Nietzsche: ele dizia (mais ou menos, estou escrevendo só de memória) que precisamos tirar, no mínimo, 300 anos de pele histórica de cima de nós (haja acúmulo de “outros significativos”, de legados de grupos de referência…) para podermos enxergar as coisas com mais clareza. Ou então que precisamos subir em alta altitude, ver de cima, com o olhar das aves de rapina (que, até onde sei, não costumam “andar” em bandos)…

 


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