Fragmentos dispersos, 4

A. Li uma frase, escrita por uma autora francesa de cujo nome agora não me lembro. Era mais ou menos assim: quem sabe, faz; quem não sabe, ensina. Quem não sabe ensinar, ensina professores a ensinar. E quem não sabe ensinar a ensinar, então se torna político.

B. Quando não estamos muito certos de nosso desempenho, então corremos logo aos outros para pedir uma opinião. Às vezes, o ato de pedir tal opinião nos engana, nos dando a sensação de que estamos fazendo algo, em vez de estarmos centrados sobre nós mesmos tentando obter nossa própria excelência, em nossos termos, com o que podemos e dispomos. Quando, por outro lado, você estuda ou se prepara de verdade, então, nestas horas, você não sente tanta necessidade de recorrer às opiniões alheias. Você sabe, no seu íntimo, que seu desempenho está excelente, pois, também no seu íntimo, você tem plena e total capacidade de avaliar seu próprio desempenho, de ficar diante dele e não sentir vergonha. Mas você só consegue isso sendo sincero e, mais do que isso, sendo, paradoxalmente!, muito competente.

C. Fazia algum tempo que não assistia a série Room 104. Minha assiduidade ficou intermitente, pois, nestas últimas temporadas, às vezes é preciso passar vários episódios para achar algum realmente bom – claro, de acordo com meu gosto para séries, etc. Eis que achei um dos melhores até aqui. O título é “The hikers” (S4E6).

Duas amigas se hospedam no quarto durante o que parece ser o primeiro dia de uma sequências de três meses de caminhadas/trilhas. Uma das moças descobre que havia uma pedra no seu sapato, com a qual ela fez a trilha e acabou conseguindo uma bolha dolorida. A amiga, de quem até então não sabíamos nada, exceto que parecia um pouco “forçada”, prepara um banho com sais para que o pé da outra melhorasse. Tudo parecia muito bem, até o momento em que a moça com o pé machucado descobre que, na verdade, a pedra havia sido supostamente colocada pela amiga. Quando questionada, esta diz, numa imensa simulação, que havia feito isso para estimular a amiga a resistir, a ser forte, etc. Vendo que isso era obviamente mentira, a amiga do pé machucado coloca a outra contra a parede e esta, então, assume que havia colocado a pedra (ou dá a entender; afinal, ela carregava na bolsa um saco de pedrinhas!). O real motivo? Porque ela não suportava ver a amiga, que era obesa, passar pelo, segundo ela, vexame de não conseguir terminar esses três meses de caminhada.

Pois bem, o que vemos a partir daí é uma coisa que, honestamente, me fez ficar pasmo pela truculência de sinceridade (necessária, no caso): a amiga “magra” (e “bonita”) não suportava a outra amiga “gordinha, feia, nojenta”, nas palavras dela. No fundo, não conseguia se conformar (a inveja era grande) com o fato de que essa amiga estava de boa com o corpo dela, e, conforme revelou, se sentia feliz, prestes a iniciar em um novo trabalho, etc.

Há mais detalhes, mas o ponto central parece ser: o que faz uma pessoa nossa amiga? Quais as chances de vivermos em nossas amizades (de infância, profundas, de longa data, ou novas amizades, etc. etc.) sobre uma imensa camada de mentiras, simulações, em que o suposto amigo faz coisas pensando em nosso “bem” quando, na verdade, ele está apenas pensando nele próprio (e por vezes nem perceber isso ele percebe)? Quantas pedras são colocadas em nossos sapatos por aqueles que se dizem nossos melhores e mais devotos amigos? Como sabemos que nossos amigos, ou nós mesmos, somos verdadeiramente honestos uns com os outros, ou mesmo sobre as consequências de sermos honestos, falando olho-no-olho, cara-a-cara?

A verdadeira amizade, dizia Aristóteles, só ocorre entre iguais. Aceitar nossos amigos por aquilo que eles são, e não por aquilo que projetamos neles, ou pelo uso que deles fazemos (“Ah, meu amigo é muito influente”; “Ah, sou amigo da elite”; “Ah, meus amigos são todos lindos e inteligentes”, etc., etc.) para resolver problemas que são, no fundo, nossos (como o da personagem que não conseguia se sentir confortável em sua própria pele, sendo doentiamente dependente da percepção dos outros sobre ela).

Sobre a camada aparente, superficial, de amizades, pode se esconder um pântano de mesquinharias, veleidades, competição, cinismo, inveja, soberba… . E faz parte da amizade, eu acho, reconhecer tudo isso, se for o caso, e, como no episódio, terminar por se inverter o quadro, quando a amiga do pé machucado oferece um banho de sal para a outra amiga, vendo o colapso desta. Se após isso será possível ou não seguir com a amizade (já parou para pensar em momentos de pura honestidade com outra pessoa, o que isso provocou em vocês?), só os afetos e nossas intuições dirão. Mas com certeza o mundo seria um lugar melhor se as amizades fossem desinteressadas. E se amássemos o que temos (nossos amigos por aquilo que eles são), e não o que gostaríamos de ter (um amigo “bonito” porque quero me sentir assim; ou um amigo “feio” porque preciso me afirmar contra esse pano de fundo. Seria pedir muito da subjetividade humana, senhor Freud?).

D. Esse episódio do Room 104 fez vir mais uma vez para a superfície algo que um amigo meu do passado, o MCS, me disse certa vez, enquanto jantávamos em nosso apartamento compartilhado à época: que ele queria uma mulher que o amasse pelo que ele era. Ele não disse dessa forma, e nem sei mais o que é minha memória ou realidade. Era algo mais ou menos assim: as pessoas às vezes nos amam não pela nossa singularidade, mas por aquilo que representamos.

Eu sei que talvez isso seja algum tipo de romantismo individualista, mas nunca esta reflexão me saiu da cabeça. Talvez seja com ela que eu tenha reagido ao episódio da série que acabo de descrever. Pois vamos lá: suponhamos que eu tenha a profissão X, e, dentro dela, eu tenha a hierarquia X”n”, dentro de esquemas de valores da instituição em que trabalho. Alguém pode “gostar” de mim por conta justamente disso, dessa camada que, no fundo, não diz talvez sobre quem eu seja – ou melhor, sobre o que eu poderia ser se se lançassem a contruir algo comigo, tentando não se deixar determinar tanto pelo lugar que ocupo numa hierarquia simbólica qualquer.

Meu amigo usava outras expressões. Ele me dizia: alguém pode amar o “homem” (genérico), e não o “homem MCS”. O homem pode desejar se casar com uma mulher, por exemplo, mas não necessariamente com a mulher +/**@, com suas características absolutamente singulares. Não à toa, temos por aí muitos filmes que tratam disso, como quando certos personagens não revelam sua verdadeira “identidade social” (invariavelmente, rico, etc.), sugerindo que fulano ou fulana se apaixonou de fato por aquilo que o outro era, sem ser afetado/a pelos papéis sociais alocados sobre aquela pessoa.

Admito, mais uma vez, que tudo isso possa ser romantismo idealizado. Dificilmente vamos encontrar uma pessoa da “elite” fazendo amizades com pessoas “de baixo”, só para usar um exemplo bastante corriqueiro (o amor é um afeto sujeito a socialização e, como as coisas andam hoje em dia, sujeito a muito controle e produção forçada). Gostamos, em geral, de nos gabarmos de termos amigos bem situados, mesmo que o “bem situado” seja alguém que tem 5 pares de sapato, enquanto a maioria das outras pessoas anda descalça, etc. Nos apaixonamos por miragens, papéis, e em certo ponto não sabemos mais o que é o que, tamanho nosso envolvimento na coisa toda. Afinal, se pode dizer, dá muito trabalho conhecer verdadeiramente outra pessoa. Ou, ainda pior, paira aquela dúvida sobre se de fato a outra pessoa é assim tão singular a ponto de ter alguma coisa muito inédita sobre ela e que me faria me apaixonar.

Pode-se por aí dizer que nos apaixonamos por “traços” que identificamos no outro, como diria Lacan, mas mesmo tais traços não têm a ver com a singularidade total do outro, mas sim com algo sobre o que imaginamos a possibilidade de recuperação de um “elo perdido” em nosso passado, na nossa história, ou mesmo no nosso inconsciente. Mas claro que tais traços podem ser apenas vislumbres vazios, no bom sentido, que têm a finalidade de nos cativar o olhar e então de nos lançar no mistério da singularidade do outro.

A bem da verdade, seríamos assim tão massificados, tão previsíveis, amando o que todo mundo ama, com as mesmas cores e sabores? Se tomarmos outro conceito lacaniano, o de “semblante”, então as coisas se complicam ainda mais, muito embora continue achando que um dos atributos da singularidade é, paradoxalmente, o fato de ela não existir – quer dizer, ao nos lançarmos na direção do outro, mesmo que movidos pelo ‘semblante’ desse outro, não sabemos o que vamos ali encontrar, até porque não há nada para encontrar. Se fôssemos pensar a fundo, chegaríamos a uma conclusão meio trágica: a de que nos relacionamos no vazio. De novo com Lacan: não há comunicação (no sentido de que todos se entendem quanto ao que cada um ‘realmente é’ e deseja).


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