Dia 23

Gosto de muitas coisas no mês de junho, em especial no Nordeste brasileiro, onde vivo no momento. A começar pelo fato de que é nesse mês, precisamente dia 23, hoje, que faço aniversário. Fazer aniversário é sempre algo magnífico. Já ao acordar você se sente agraciado. Dia desses uma aluna, em uma aula sobre a visão do cristianismo/protestantismo sobre o trabalho (primeiro, Santo Agostinho, depois, na Refoma, com Lutero e Calvino), lembrou-nos sobre a “teoria” da Graça. Para começo de conversa, não merecemos nada; Deus nos dá numa espécie de “voto de confiança”. Gosto dessa idéia. Gosto profundamente da ideia de que somos absolutamente nada, como seres humanos, apenas salvos pela Graça e recuperados pela Fé. Não sou mais religioso (já fui seminarista); mas isso ainda me afeta. Então, no dia de nosso aniversário, somos confrontados com esse fato metafísico: somos uma nulidade viva, podendo, no momento ao menos, desfrutar (não há palavra melhor!) a vida em sua simples ocorrência (não precisa de nada: festa, bebida, simbólico: é um fato que se impõe no silêncio mais absoluto: a vida).

Lenha-na-fogueira

Depois, há algo que gosto tanto quanto: vésperas do feriado (no Nordeste) de S. João. As maravilhosas festas juninas e, mais especialmente ainda, as fogueiras de S. João. Se você já esteve aqui no Nordeste nesse período, vai perceber. O cheiro de pinho queimado é simplesmente… indescritível. Não sei explicar ao certo de onde vem essa minha fascinação. E o cenário hoje é impecável, de meu ponto de vista: chuva e um cheiro de fumaça no ar – fraco, infelizmente, mas perceptível. O suficiente para me deixar extasiado. O cheiro me lembra algo de colonial, de rural, de campestre. Talvez tenha a ver com minha infância (sempre!), pois nasci e fui criado, até os 11 anos, no campo. O cheiro de madeira queimada, sob a noite disforme da cidade, me lembra de onde eu vim, de minha origem, por assim dizer. O campo é, para mim, sinônimo de retorno, de religação com algo absolutamente superior a mim. O campo é o retorno à natureza, o retorno ao barro de que sou feito. Para mim, o feriado de S. João é a coisa mais sublime, aquele momento esperado do ano. Mesmo que eu não vá (e não vou) às festas típicas aqui da região (bem diferentes das festas juninas do interior de SP, em geral, nas paróquias….que saudades!), eu vivo plenamente o “espírito da coisa”.

O cheiro das fogueiras entrando casa a dentro… sinto-me como se tivesse voltado a ser criança, quando o mundo era, paradoxalmente, pantanosamente complicado, opaco, um tijolo caindo na minha cabeça, mas repleto de possibilidades. Aliás, acho que só percebemos as possibilidades quando avançamos na vida, quando já optamos por muitas coisas, deixando, consequentemente, muitas outras para trás. O cheiro das fogueiras me lembra de certo ponto de centramento que perdi em alguma curva monótona da vida.

A madeira, a chuva, o fogo, a destruição ardente. O fogo é fantástico: ele transforma, ele engole, ele é uma força entrópica que nasce e morre em si mesma. Do fogo, de sua provação, nasce algum tipo de “virtude”. A destruição pelo fogo é, exceto nos casos lamentáveis de trajédias, sublime: o fogo nos mostra (junto a muitas outras ‘oportunidades’) que tudo é volátil, destrutível, provisório, leve, supérfluo. Por que o fogo é prova de virtude? Por que quem passa por ele alcança algum tipo de graça? Por que fênix ressuscita das cinzas? Renasce do fogo? O fogo é um portal, um meio de a energia sair de um estado para outro. O fogo é movimento. Transformação.

A verdade é que, dia 23, meu aniversário, às vésperas do dia de S. João, com as fogueiras a queimar, a chuva a cair, a sensação é de … felicidade.