Da janela, sei que sei, ou só me engano que sei, e que sou diferente?

Olha só. E se aquilo que você acha que sabe sobre você mesmo for uma ilusão, digo, algo inacabado? Pois às vezes ocorre que achamos que conhecemos perfeitamente as circunstâncias que nos rodeiam. Achamos que sabemos bem o suficiente sobre o quem somos. Mas e se nós estivermos equivocados? Vou dar um exemplo. Você pode achar que alcançou alguma apreensão verdadeira e profunda sobre a existência, e você nela. Mas, ao mesmo tempo, alguém, se acaso se dignar a pensar em você (vamos supor que seu delírio de importância tenha alguma ínfima parcela de plausibilidade), pode te achar, sei lá, feio, ou, pensando em caráter, uma pessoa banal, comum. Como equiparar esses olhares? Sim, pois você tem o seu, sobre você, e você no mundo (das circunstâncias), e as outras pessoas têm o delas. Acho que chegamos a algum tipo de impasse aqui. Por um lado, você acha que chegou a alguma conclusão metafísica sobre o sentido de sua massa de órgãos, sangue e ossos; de outro, você considera, não apenas outras pessoas que poderiam, pela terceira vez insisto, gastar algum tempo pensando em você, mas também você pode expandir a ideia e considerar também algum ‘juíz’ mais universal e interessante, por assim dizer… todos eles vendo algo que você não vê sobre você. Já considerou, pois, que seus instintos podem estar inacabados, de alguma forma? Que você não tem o mapa todo, nem tampouco o distanciamento suficiente para se ver, digamos de novo, em algum grande e vasto cenário ou perspectiva? Não te assusta isso? Estar no fundo de um longo poço de auto-engano? Você fica bem, satisfeito e apaziguado com o conhecimento que você julga ter sobre si mesmo, e com base no qual você toma alguma decisão ou até mesmo se martiriza? Bom, mas as coisas podem se complicar muito mais do que isso. Você pode, por exemplo, levar em conta considerações ainda muito mais amplas e categoriais. Por exemplo, vamos supor que a humanidade se divida entre os boçais, e alguns, alguns muitíssimos raros, que têm alguma originalidade. O que estes originais, ‘originais’, pensariam sobre si mesmos? Será que, afinal, e ao fim, eles teriam alguma energia para investir em pensar em si mesmos, em vez de pensar em projetos altamente externos a eles? Enfim, se, por alguma objetividade alheia, existisse tal possibilidade de classificar os seres a princípio entre os originais e os nem tanto, então você poderia, pela estatística, muito certamente cair no grupo dos tais boçais, que apenas seguem sua vidinha, na esteira do que a evolução lhe pôs no caminho, ou seja, com um cérebro sem fronteiras; muitas sinapses, se você não for um desnutrido, etc. Mas um que segue sua vidinha pensando em grandes coisas, quer dizer, tendo a si mesmo em alta conta. Será que, lá pelas tantas, essa pessoa, esse ser, colocar-se-ia a dúvida sobre se isso que ele pensa de si mesmo tem lá alguma pegada no real, no factual, no grande cenário em que, pelo fato de estar vivo, ele acaba ocupando? O que quero dizer é que tudo isso que esse ser não original pensa possa ser completamente falso. Mas aí a coisa complica de novo, oras, pois se pressupõe algum critério de verdade a partir do qual um ser poderia então se avaliar a si e tal julgamento redundar em algo consubstancial na ‘realidade’. Vou dar um corte aqui, para inserir outra coisa não relacionada ao tema. Da minha janela, vejo algumas pessoas. Elas sempre se reúnem numa espécie de bar. Aqui, de onde olho e observo, leio um ‘partido’ político. Haveria questões culturais para explicar, mas me privo de tanto. Então, todo dia elas se reúnem, tomam cerveja. Quando as olho, sinto certo desconforto, no bom sentido. Explico. Pois sei se que amanhã ou depois não estarei mais aqui. Mas eles, sim; eles continuarão a se arrastar pelo peso que a história deles impôs a eles; algo mecânico, mesmo que, na filigrana do cotidiano deles, pareça algo repleto de sentido. Pois bem. Eu os vejo como passageiros, mas, ao mesmo tempo, sei que eles são personagens eternos de um roteiro igualmente eterno, no qual conjuram (vivem) suas vidas. Mas eu não; eu não pertenço a isso. Eu sou apenas um olhar de passagem. Deve ser interessante, aliás, ser um ‘ser que não morre’ (vampiro, anjo, não importa!). Pois você vê o cotidiano, sabe que ele é repetição brutal, no sentido extremo de brutalidade, mas sabe que, para você, particularmente, tal repetitividade não é idêntica em seu conteúdo, apenas na forma, pois você não está eternizado neste momento, tampouco neste olhar de primeiro andar sobre os personagens estáticos lá embaixo, vivendo suas vidas, muito no sentido real e absoluto, já que para eles não é uma farsa. É, mas isso só daria certo, para tal ser eterno, se ele mudasse, se ele andasse, se ele não pertencesse a lugar algum, e se ele se mantivesse de uma perspectiva da eternidade, em que um momento qualquer no tempo, apreendido de uma janela qualquer, não fosse mais do que um grão de poeira. Falei que faria um corte não ligado ao assunto de partida, mas acho que meu inconsciente me deu uma rasteira, pois parece que, desde a partida, eu estava justamente pedindo isso, numa espécie de desespero e desamparo: um olhar eterno, fora do tempo, numa recusa em sair da plateia e entrar no palco e seguir representando, sem tanta lamúria e auto-engano (talvez, quanto ao mais, nunca estive na plateia; seria isso possível, afinal?).


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