Depressão (2)

Ainda pensando sobre depressão, há uma leitura complementar à que fiz no post anterior. Uma leitura, porém, que segue na linha de entender parte da origem da depressão em um fenômeno de mal-estar civilizatório, ou seja: derivado da ruptura no “pacto civilizatório” (lembro-me de ter lido uma vez um belo texto de  Hélio Pelegrino sobre isso).

Nesse sentido, poderíamos entender a depressão como uma “doença” dos inertes numa época em que a inércia é o pior de todos os males. Equivalente a dizer que o deprimido é alguém cujo desempenho fica aquém do esperado pela “civilização” (leia-se, neste caso, a “civilização mercadológica”).

Há um bom par de décadas atrás, a doença que mais incomodava aos “disciplinadores” (higienistas, médicos etc.), era a euforia. Lógico, nada pior do que uma pessoa eufórica numa sociedade regrada e estática (regida pelo casamento pudico, pelas falsidades das aparências sociais etc.).

O inverso, lógico, pode ser verdadeiro – hoje, vivemos na euforia do momento. Fazemos várias coisas ao mesmo tempo; somos às vezes várias “pessoas” ao mesmo tempo. Não há, para os típicos pequenos burgueses de classe média que somos, alternativa senão a euforia profissional e pessoal em todos os sentidos.

Portanto, além de estimulado pelo desejo de espantar o sofrimento e a dor vinculados à depressão, o indivíduo é também pressionado para manter-se em dia e em forma psíquica. É isso de que precisam as empresas, nossas famílias e tudo o mais. Logo, a depressão, nesse seu aspecto, digamos, “social” (não simplemente “biológico”), é uma doença de época.

Depressão (1)

A leitura de uma coluna de Contardo Calligaris, na Folha, sobre antidepressivos me despertou, como sempre, a atenção. A pergunta do psicanalista é sobre se os antidepressivos realmente “curam” a depressão ou se apenas a “mascaram” – como faz uma aspirina, quando temos dor de cabeça.

A resposta depende. Em primeiro lugar, depende de se a depressão em questão for resultado de uma alteração no nível de serotonia (um neurotransmissor) cerebral. Ora, nem sempre, quando sentimos um mal-estar como o associado à depressão, ele é originado em uma disfunção biológica dessa ordem. Às vezes (não se sabe dizer quanto), um mal-estar é causado por outros fatores. E aqui entra o segundo ponto.

Esses “outros fatores” são de ordem psíquica, social, afetiva ou discursiva. Quer dizer, como não é possível mensurar in loco o nível de serotonina, tem-se de confiar na descrição que a pessoa faz de seu estado psíquico. E como uma pessoa faz isso? Ora, aqui o pragmatismo de Richard Rorty nos ajuda: a pessoa faz isso recorrendo às crenças presentes em sua comunidade linguística. Explicando: ela diz ter ou não “depressão” dependendo de um padrão (em geral dado pela psiquiatria) que associa certos sentimentos, pensamentos etc. a certas “patologias do espírito”.

Quer dizer, numa visão pragmática, o sentimento se expressa mediante a linguagem, sendo sua magnitude e qualidade interpretados linguisticamente e, como disse, recebendo nesse processo a influência da cultura (ou comunidade linguística). A conclusão que tiro é a seguinte: nosso mal-estar é químico ou psíquico? Velha questão entre corpo e mente, não há dúvida. Mas a resposta de Calligaris, e na qual vejo muito sentido, é: só ex post se descobrirá se a “depressão” em questão é ou não de ordem física, por exemplo, após a administração do antidepressivo.

Ao tomar o andidepressivo, ele pode ou não “funcionar” – desde que o mal-estar ou angústia em questão tenham efetivamente um cunho originário no cérebro (como “órgão”). Mas é bom lembrar que nem todo mal-estar é físico; que nem todo mal-estar é apagado com uma droga. Às vezes (e, novamente, não sei o quanto), um mal-estar (depressão, angústia, tristeza etc.) tem a ver com nossas escolhas de vida, com os ambientes em que estamos, com os desejos que não estamos realizando, com as sombras da vida nas quais podemos nos perder.

A depressão, portanto, é um problema ao mesmo ético, disciplinar (no sentido foucaultiano de disciplina: depressão como construção médica) e “ontológico” (em sentido heiddegeriano, é o “ser” que está esquecido na depressão, e que precisa ser resgatado).

O ego e a ação

Para mim, no dia de hoje, faz muito sentido uma frase de Freud acerca dos propósitos da terapia: “que onde há super-ego, aja eu”. O super-ego, na terminologia psicanalítica, refere-se à instância crítica, responsável por sentirmos culpa. Quando sentimos culpa é porque fomos “alertados” quanto à proibição do ato que realizamos. Aí entra o super-ego. O ego não: por meio dele, agimos. Ele é a instância, por assim dizer, “ativa” – operatória. Logo, quanto mais forte for o super-ego, maior é a culpa, maior o sofrimento e a frustração e mais escassa a ação. Daí que, quanto maior o espaço do ego, mais agimos, mais intervimos na realidade, fazemos algo.

Encontrando uma linguagem própria

Acredito que uma das causas de qualquer forma de sofrimento mental seja a impossibilidade de o indivíduo construir uma linguagem própria para se expressar. Pois, no fim, somos produto de uma extensa tradição lingüística que deposita sobre nós um vocabulário de termos e conexões que obscurecem nossa capacidade criativa. O sujeito é, em seu dia-a-dia e em última instância, reflexo de termos concatenados que usa para lidar com situações e pessoas. Por exemplo, no trabalho: repare que a linguagem com que as pessoas se expressam é quase sempre a mesma, quaisquer que sejam as organizações que considerarmos.

Richard Rorty, em uma passagem na qual discute as características do “homem ironista”, diz o seguinte:

[Os ironistas] não esperam ter suas dúvidas dirimidas por algo maior do que eles mesmos. Isso significa que seu critério para dirimir dúvidas, seu critério de perfeição privada, é a autonomia, e não a filiação a outro poder que não eles mesmos. Tudo com que qualquer ironista pode cotejar o sucesso é o passado – não por ficar à altura dele, mas por redescrevê-lo em seus próprios termos, com isso tornando-se capaz de dizer: ‘Assim eu quis’ […] Ele quer poder resumir sua vida em seus próprios termos. A vida perfeita será aquela que se encerrar na certeza de que o último de seus vocabulários finais, pelo menos, terá sido realmente todo seu”.

A afirmação do estilo pessoal. Não a certeza sobre a “verdade” desse estilo, sobre a correspondência dele com qualquer critério exterior (por exemplo, com o que todos estão fazendo). Não a confirmação da linguagem cotidiana, do “falatório” que muitas vezes nos limitamos a reproduzir. Trata-se de criar o gosto pelo qual será julgado. Ecoando Nietzsche: “tornar-se quem é” – ou seja, “tornar-se aquele em que o indivíduo se transformou no decorrer do gosto pelo qual acabou julgando a si mesmo”.


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