O limite

Quando sabemos que chegamos a nosso limite, ao limite daquilo que almejamos nos tornar (supondo que, nada mais nada menos, queiramos nos tornar os melhores ‘do mundo’ no que fazemos?). Em que momento sabemos que é hora de desistir?

Algumas dessas questão são colocadas em Whiplash (ver filme abaixo).

O argumento não é novo, mesmo no caso da arte. A discussão sobre os limites da obsessão por se tornar o melhor atravessa a arte, da literatura ao cinema (no caso da primeira, ocorre-me agora o livro “O náufrago”, de Thomas Bernhard).

Em Whiplash ( literalmente, “chicotada”) um jovem estudante de uma das “melhores escolas de música dos EUA” encontra-se às voltas com um professor linha-dura, do tipo daqueles instrutores impiedosos do exército, que a todo instante o pressiona e o “humilha” (uso entre aspas pois, no mundo politicamente-correto que vivemos, um professor, quando quer extrair o melhor de seus alunos, é chamado assim, como quem humilha os alunos – claro, há exceções, mas não estou falando delas) pelo direito de poder tocar na bateria da banda de jazz da escola.

Embora o filme tenha muitos lapsos, o fato é que ele lida com aspectos simplesmente fundamentais de nossa relação com nossos desejos e com sua possibilidade de realização, para não falar da própria relação ensino-aprendizagem e a busca pelo sublime, pelo perfeito, pelo milimetricamente exato, preciso, sintonizado (o professor em questão, apenas após alguns toques dos instrumentos pelos músicos, já sabia se estavam ou não sintonizados).

Até que ponto somos, enfim, capazes de sustentar nosso desejo? Bom, a pergunta já foi indecentemente explorada por muita gente, psicanálise à frente. No contexto do filme, que não poderia ser melhor (o da música), há, mesmo num gênero conhecido pelo improviso (o jazz), um ‘produto’ tangível decorrente do que os músicos fazem – um produto (a música) que pode ser avaliado, pode ser contrastado com algum critério de valor (no caso do professor-linha-dura, um critério beirando à perfeição). Quer dizer, mesmo que tenhamos “subjetivismos” aqui e ali, fato é que podemos distinguir um “bom” músico de um músico mediano ou simplesmente medíocre.

Nas artes, nossa relação com o belo, com a perfeição, com o ajuste fino, irreparável, entre corpo e mente, entre corpo e instrumento, entre corpo/instrumento e os demais membros/instrumentos (de uma banda, como é o caso do filme), é muito mais facilmente discernível do que em campos menos propícios à geração de ‘produtos tangíveis’.

Não se trata, penso, de sustentar ‘psiquicamente’ nosso desejo, mas, antes de mais nada, de colocá-lo em ação em termos de desempenho. Até que ponto, porém, vai a perseverança, a resiliência, a capacidade de resistir às frustrações e continuar? Basta, como no filme, a pessoa ensaiar, praticar, estudar, até o limite da exaustação e do prejuízo físico (o jovem músico tinha, nos momentos em que ensaiava, sangue nas mãos)? Treinar horas a fio, dias, meses, anos, é ‘garantia’ de que seremos (como queria o jovem personagem, como todo adolescente?) “os melhores do mundo em nossas áreas de especialidade”?

Claro que não basta, aqui, jogar a dívida na conta do talento. O talento depende de disciplina, pelo menos parece assim ser em muitas áreas (mesmo para os gênios). Porém, quantas pessoas, em todo esse mundo, talvez nesse exato momento, estão treinando, obstinadamente, para se tornarem os melhores, se superarem? No caso brasileiro, para dar um exemplo, pense-se no exército de pequenos jogadores, ávidos para superar os times de vársea e chegar a alguma divisão minimamente respeitável do futebol (claro, sempre visando se tornarem grandes ‘craques’, como os ídolos de plantão…). Quantos chegarão no topo? Pouquíssimos, e não se trata apenas de oportunidade (embora, claro, se houver, melhor!), nem tampouco de apenas sorte, nem de treinamento exaustivo. É preciso algum ingrediente a mais.

O filme dá a entender que tal ingrediente pode ser encontrado do lado do próprio indivíduo, de sua obstinação, motivação. Subrepticiamente, a mensagem é: o mundo vai lhe dar muita porrada, vai lhe jogar lama na cara e vai dificultar, muito, sua vida. Só nesse momento, um exército vai morrer na praia. Não vão aguentar a carga, ou, como inclusive ocorre no filme, vão até algum advogado e tentam processar o professor (no caso) pelo “assédio” e pelo método pouco “educativo” do professor (que, de fato, perde o emprego de instrutor por conta disso). Recorrer à justiça, embora devidamente plausível e, em muitos casos, realmente necessário, é, de novo neste filme, sugerido como algo para os “fracos”. Essa mensagem, evidentemente, dá muita dor de cabeça para muita gente. Joga-se a criança e água fora, nesta questão. Humilhou, processo nele! Porém, e se houver algo mais profundo, algo mais visceral, algo mais próximo do “real” (no sentido filosófico ‘realista’) nisso tudo, e se, de fato, como diz o professor quando encontra seu ex-aluno num bar, for essa, precisamente essa, a causa do fracasso que a música vivencia hoje em dia (ele dá o exemplo do jazz, mas, óbvio, a generalização pode ser facilmente feita aqui)? O que separa o exército que morre na praia, que racionaliza (“ah, isso não era para mim, mudei de área…”), se entrega, do pequeno número dos que prosseguem? Volto à pergunta: treino, perseverança, ousadia, acreditar em si mesmo, talento?

Arriscar. Talvez seja isso. Pena que o filme não explora os dilemas do personagem, nem as contradições envolvidas nesse jogo de ser o melhor, de fracassar, de desistir, ou de seguir adiante. Neste ponto, o filme, a meu ver, perde densidade, fica rarefeito. Mas o objetivo desse meu post não é fazer uma crítica profissional do filme (de críticos ‘profissionais’ há muito por aí e você pode facilmente achá-los).

Meu ponto é outro, justamente esse de questionar em que medida nos separamos da mediocridade. A mim, um diagnóstico parece acertado deste filme (embora por razões diferentes das apresentadas): um amolecimento generalizado, a começar nas escolas, desde os “jardins da infância” (ou sei lá o nome dado hoje a essa etapa da alfabetização) até, sobretudo, à universidade, tem distorcido muita coisa. Para começar, muitos de nós não somos mais capazes de nos confrontar conosco mesmos e com nossos próprios ideais. Em algum nível, talvez seja porque temos medo de encontrar algo de que não queremos ter notícia. Dentro de nós! Algo que nos diz que, “…ah, puxa, a vida é assim mesmo, para que sonhar tão alto? Isso é para os adolescentes…eu prefiro o pé-no-chão, o feijão-com-arroz do meu emprego e da minha vida atual…isso é que é ser adulto…”. E vamos nos levando com racionalizações “verdadeiras”. Depois, esse amolecimento, como o próprio nome diz, está nos levando, sobretudo a nossos jovens, à perniciosa ideia de que não é preciso se esforçar para conseguir as coisas. Quando muito, algum esforço calculado, pois, novamente como defesa ou sei lá o que, a gente cria a ideia de que “…ah, como estou trabalhando, como estou estressado…preciso relaxar…”. Não é paradoxal que cada vez mais cresça a tal geração “nem-nem”: nem trabalho, nem estudo? Seria só por falta de oportunidades, de um capitalismo selvagem que engole a todos, sem dó nem piedade, pois só o que importa é o seleto grupo dos melhores? E, nessa mesma direção, vemos novamente a criança ir embora com a água, ao dizer que é o “capitalismo” que implanta na nossa cabeça a ideia de que temos de nos superar e sermos os melhores…sim, o capitalismo (deve ser o capitalismo que faz com que músicos queiram atingir o sublime e a perfeição…sim, o capitalismo). Irrita-me essa lama de bobagens.

(…)

Mas, para não me alongar mais, pois teria de mostrar e fundar minha ‘indignação’, e para não parecer superficial, encerro à francesa: recomendo o filme. Afinal, é bem melhor ver esse clima de “exército” tendo, como pano de fundo, o jazz, do que aqueles filmes com recrutas descerebralizados… Melhor filme do ano para mim!

Estética como ética

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Assisti ao filme A grande beleza, de Paolo Sorrentino. Há muitas críticas sobre o filme disponíveis na internet, boa parte das quais enfatizando a semelhança do filme com  A Doce Vida, de Federico Fellini. Em ambos os casos, o cenário é Roma. Em ambos os casos, supostamente, a incapacidade de o personagem principal (no caso de A grande beleza, Jep Gambardella [Toni Servillo]) adaptar-se ao mundo ao redor, à mundanidade. Na Roma de 2013, a mundanidade resum-se ao consumo e às excentricidades da classe abastada.

Sem me desviar muito do eixo das críticas, inclusive da que, para mim, fez mais sentido (a de Calligaris na Folha de quinta, 26), queria registrar algumas impressões.

1) O vazio sentido por Jep em meio, paradoxalmente, à abundância, ao exagero das cenas e imagens – um contraste fantástico entre um barroco (romano), repleto de obras de arte, e o vazio. Nossa vida resume-se ao espaço delimitado por um parênteses, uma suspensão, entre a dor e momentos fugazes de prazer inesquecíveis (ou, como diria a “santa” Maria do filme, “as raízes”);

2) A estética como um modo de estar no mundo, de tornar a vida suportável. Não se trata de futilidade, como muitos críticos observaram: a futilidade de uma Roma submersa no consumismo, no desfrute, no gozo sem qualquer “seriedade” (como se algum gozo tivesse seriedade, não é?!). Trata-se de fluência: a fluência da vida, dentro do parênteses que a delimita, no fluxo da ilusão;

3) A ilusão tem um destaque fundamental no filme, a meu ver. E é sempre importante lembrar que ilusão não é sinônimo de mentira, de engodo, o avesso da realidade: no filme de Sorrentino, a ilusão é o próprio líquido amniótico da existência. Uma espécie de estética da ilusão, o sincronismo das imagens perfeitas;

4) O vazio do filme não tem a ver apenas com um passado feliz que não pôde se realizar no presente (Jep tem um amor de juventude, e, logo no início do filme, é comunicado de que ela havia acabado de morrer); tem a ver com o que fazer enquanto “esperamos” a morte. Sim, não adianta fugir; não há para onde correr – a morte é como tudo termina, é “o outro lado” comentado por Jep ao final. Mas, antes da morte, há “o lado de cá”, e, neste, o que fazer? Trabalhar? Ser uma pessoa séria, respeitada, proeminente? Criar e cuidar dos filhos? Do lado de cá, na visão de Jep, existe apenas uma coisa: momentos felizes soterrados sobre um monte de blá, blá, blá; e momentos de medo e dor, também eles sedimentados sobre um monte de blá, blá, blá (sic). E a ética de Jep é, justamente, a ética da estética, a ética da ilusão.

5) Talvez os críticos do “consumismo” e da mundanidade não consigam enxergar isso: de que não é possível haver uma posição isenta, uma perspectiva a-temporal que nos diga, com certeza doutrinal, de que certas ações, certos rituais, são “fúteis”. Ora, qual seria o inverso da futilidade? A penitência? A vida regrada, ordenada, “certinha”? A vida pequeno-burguêsa, ou, ao inverso, a vida modesta? O que quero dizer, e que acho que é uma leitura possível do filme, é que, no conteúdo encerrado pelo parênteses da vida, só nos resta a ilusão, e, nesta, a estética.

O choro do capitão Phillips

CapitaoPhillips2Para você que assistiu ao filme Capitão Phillips (com Tom Hanks), eu lhe pergunto: você conseguiu entender o porquê de seu choro ao final, por que o capitão chorou? Na minha opinião, o ponto alto do filme se observa nesse exato momento, quando ele, indagado pela médica-robô, diz que o sangue que estava sobre ele não era… dele.

Um contraste imenso emerge do filme. De um lado, a marinha dos EUA, altamente equipada, técnica, estritamente baseada em indicadores racionais para a execução de suas ações. De outro, quatro somalis completamente sozinhos, no meio do oceano, com um refém, pretensamente indo à Somália para negociar e ganhar muito dinheiro com o sequestro do capitão Phillips.

O contraste radical, a todo tempo, era entre a pobreza e o desamparo, a pura e simples insignificância, e o poderio e o suporte e a segurança oferecidos pelos EUA ao cidadão capitão Phillips, ali representando, me pergunto, o que? Representando a empresa para a qual trabalhava, representando um Estado organizado, que leva e traz mercadorias sobre o oceano, e que defende, acima de qualquer coisa, a propriedade e a soberania nacional (no caso, dos EUA). O cap. Phillips entende, e daí seu choro, que, apesar de toda a assistência que recebia, havia um profundo vazio no ar.

Belíssimo filme.

Les Misérables

O filme, por si só, é uma obra de arte imperdível. Indico, abaixo, a última trilha sonora, justamente uma das partes mais emocionantes da peça, com uns dos mais belos dos diálogos, afora a “oceânica” melodia de fechamento… [cuidado, é um spoiler…]

 

Malária

O homem

Dogville

Ontem assisti novamente a Dogville, do Lars von Trier. Acho que é a terceira vez que assisto. Ao contrário das outras vezes, porém, não havia percebido a sagacidade do final, justamente a parte dos créditos. Eis que a achei na net. Infelizmente, não dá para reproduzir aqui porque o Youtube não permite, mas você pode assistir diretamente no endereço original. A música é de David Bowie – e esta sim reproduzo abaixo (caso queira só ouvi-la sem a cena dos créditos de Dogville, embora se perda bastante o efeito pretendido). Tente imaginar, se você já assistiu a este filme, o porquê deste final…

Persistência e esperteza