Pesquisa empírica e democracia

Tentemos suspender, por um instante, a idéia de que a pesquisa informa e subsidia ações práticas. E também vamos suspender certos jargões da filosofia da ciência, como as divisões clássicas entre empiristas, materialistas, idealistas, realistas e assim por diante (embora algumas dessas divisões sejam mais fundamentais, mais primitivas, do que outras). Pesquisa é uma forma de acessar e entender o mundo. Nas ciências sociais e humanas, elas se dedicam a entender e a intervir (ou ajudar a isso) em problemas reais vivenciados por pessoas, grupos, instituições.

Já comentei aqui, em outro momento, o exagero com que se criam pesquisas acadêmicas – na ocasião, eu tinha em mente a pós-graduação. Neste post atual, meu foco é outro: minha pergunta é porque, quase sempre, temos de realizar pesquisas empíricas, ou seja, porque, quase sempre, precisamos usar questionários, entrevistas, observação, etc. para podermos criar conhecimento? Permitam-me uma ficção mental: será que Marx teria construído sua teoria se ele tivesse saído “a campo” para entrevistar trabalhadores? Teria Marx proposto interpretações de amplo alcance sobre o sistema de produção e sobre a própria dinâmica histórica, se ele tivesse, à sua frente, um banco de dados no formato SPSS, derivado de aplicação de questionários com “uma amostra representativa” de trabalhadores? Ou, ajudemos Marx, se ele, além de tudo isso, tivesse optado pela “triangulação” de dados, combinando entrevista, questionário e observação (das fábricas, por exemplo)?

Não quero ser mal-compreendido. Marx era uma pessoa contemporânea, sabia o que se passava à sua época, tinha sensibilidade para isso. Só não precisou recorrer aos métodos e técnicas de reconstrução empírica da ciência moderna. Aliás, não sei qual era a relação de Marx com a ciência de sua época, e tampouco sei se havia, à sua disposição, a infinidade de “técnicas de coleta de dados” que temos hoje. Também sabemos que, vez ou outra, Marx utilizava-se de dados “empíricos”, especialmente econômicos. A minha questão é outra: que mundo vamos “construindo” quando nós, modernos (2011), utilizamos tais técnicas?

Em princípio, um mundo fragmentado. Muitas vezes, um mundo completamente alheio ao movimento da História (propositalmente, com teleologia). Tratamos o singular como singular, e, no máximo, fazemos afirmações óbvias sobre a “influência do contexto”. Pensando na psicologia organizacional, quando queremos saber sobre o porquê de os trabalhadores se comprometerem ou não com o trabalho, vamos “a campo” e perguntamos para eles. Mesmo que, de antemão, já imaginemos (ou saibamos) a resposta que vamos encontrar, ainda assim vamos a campo para “dar voz ao trabalhador”. Na sequencia, analisamos cientificamente seus dados e “voltamos” a campo para “dar visibilidade” ao capitalista (dono da empresa ou gestor de recursos humanos) que as coisas podem não estar indo bem, pelos motivos a, b, c. De posse dessa informação, o capitalista/gestor poderá tomar medidas para “melhorar” a situação em questão.

A “democracia” da pesquisa empírica tem a ver com essa tentativa de produzir conhecimento de baixo para cima. Claro, também tem a ver com a especialização em ciência – só  pesquiso um pedaço da realidade. O pesquisador não pode, sob pena de ser processado num tribunal epistemológico, simplesmente escrever um “texto teórico” sobre o mundo: ele precisa ir a campo e rechear sua teoria com “dado”. O pesquisador, em geral, compromete a profundidade de sua análise se ele faz “somente isso”: análise. Como “ser lançado no mundo”, ele praticamente só tem o ensaio à sua disposição, no caso de não querer “dar voz ao pesquisado”. Veja-se nas instruções dos principais periódicos científicos – mesmo que aceitem “ensaios teóricos”, estes claramente são preteridos a relatos de pesquisa empírica.

Se, de um lado, a pesquisa empírica pode se inserir num movimento maior de “democratização” (no sentido aqui utilizado), de outro esse mesmo movimento tem gerado (ou pode gerar) um esvaziamento do lugar do pesquisador. Muitos nem precisam “pensar muito”, desde que deixem os dados “falarem por si”. Claro que, diante do dado (na sua própria concepção), o pesquisador intervém com sua agência criativa e sua subjetividade, mas, no final, diante do rigor acadêmico, ele acaba se acanhando – adota a linguagem sem sujeito (“observou-se que…”), titubeia (“parece que os dados…”), torna-se humilde demais (“limitações da pesquisa”; “os dados empíricos só permitem afirmar que…”). No jargão de certa crítica social, temos todos de “ir para o mundo”, temos de sair de nossa torre de cristal. Acho que, no limite, esse jargão transformou grande parte dos pesquisadores em jornalistas, em gente que trabalha com pesquisa de opinião.

História da ciência

No mundo acadêmico das Ciências Humanas, há certo torcer de nariz anti-realista, segundo o qual a história da ciência é uma narrativa de caçadores de fatos e do “real”. Critica-se tal empreitada como sendo realista demais, positivista demais (embora a maioria não saiba, de verdade, explicar, filosoficamente, em que consiste o positivismo…). Mas não há como negar que estamos onde estamos, com todas as mazelas e consequencias disso, graças, em parte, à ciência como um dos mais notáveis empreendimentos humanos.

Uma interessante série da BBC de Londres faz um resgate da história da ciência, notadamente a ciência “dura”, dedicada à descoberta dos “segredos da natureza” – quem somos, por que estamos aqui, de que somos feitos, para onde vamos.

Uma coisa me chamou a atenção: por que a religião, desde tempos imemoriais, é uma das mais “preferidas” formas de explicar tais questões? Sendo muito simplista, eu diria que a religião é uma forma fácil de explicar a vida; ela não depende de pesquisa, de audácia, de trabalho em conjunto com outras pessoas, de criatividade, inovação, curiosidade, sofrimento. A religião faz de nossa vida neste planeta uma história encantada, o produto de um “pensamento oceânico”, para dizer como Freud. Aliás, foi Freud, como também Marx, quem nos alertaram para as armadilhas do pensamento religioso.

Quem se dedica um pouco à compreensão da história da ciência descobrirá que há muito mais do que fé na compreensão dos mistérios deste universo e de nossa vida nele, embora haja, de fato, uma parcela de fé mesmo na ciência mais “radical”. De todo modo, recomendo a série cujo primeiro episódio sinalizo a seguir.

Competência sem compreensão

Interessante fala do prof. Dennett sobre a “inversão” criador-criatura!

Estamos no ar!

A Internet funciona, para muita gente (eu incluso), como um “marcador identitário”: enunciamos aqui o que esperamos que se torne “real” na “vida real”. Pois, neste espírito, comunico o nascimento on line de “nosso” novo ponto de encontro real/virtual:

GPPOT

Aos simpatizantes, sejam bem-vindos! E às pessoas “de carne-e-osso” que já estão no barco, enjoy it!

Publicação de artigos

Professor Gilson Volpato (UNESP) discute os principais motivos de rejeição de manuscritos em revistas científicas de alto nível. Apesar de transparecer um modelo muito específico de ciência na discussão do prof. Volpato, o qual muitas vezes não se aplica a diversas áreas de Psicologia, ainda assim vale a pena conferir, pois há dicas importantes de redação científica.

Precisamos transformar TUDO em fato científico? Só os obsessivos…

Max Weber disse, no início do século passado, que os empreendedores capitalistas (na ocasião, ele se referia aos norte-americanos), não iriam parar até que o último combustível fóssil deste planeta fosse queimado. Estou parafraseando. O contexto do argumento era o capitalismo. A analogia serve para pensar em algo semelhante, porém não na esfera da economia: a ciência não faz a mesma coisa? O desejo de explicar tudo, de transformar tudo em um “fato científico” parece não ter medida.

1. Primeiro, pensemos no mundo pequeno da pesquisa: todo aluno que deseja fazer mestrado ou doutorado tem de “descobrir um tema” para pesquisar. Vale tudo: a engrenagem teórica tritura tudo o que encontra pela frente. Na psicologia, se você é um afeito à psicanálise, você pode querer explicar desde porque crianças não tomam leite ou gritam demais até porque as pessoas não obedecem a lei ou são violentas. Se você é um comportamentalista, pode querer entender desde a vida das formigas, macacos e outros animais até porque suamos frio quando ouvimos o sino da igreja tocar em um sábado à noite. Exagero, simplificação minha, mas o ponto está correto: tudo vira fato científico. Quem é que já não presenciou o desespero dos jovens que entram para um mestrado, antes de se tornarem “estáveis” em algum nicho disciplinar?

2. Tornar tudo passível ser pesquisado, escrutinado, explicado, é, mutatis mutantis, semelhante ao que faz um pensamento religioso ingênuo: tudo é explicado recorrendo a Deus. Chouveu? Foi porque Deus quis; o dia amanhece, a noite cai: Deus quis. E assim por diante. O desconforto é incalculável para o devoto alienado que não consegue encontrar no mundo senão a teleologia divina. O cientista alienado, idem. Seu desejo de saber, de dominar, de prever, pode não alcançar fim. Cientistas, na versão caricata do indivíduo que vê o mundo como um laboratório, tem uma curiosidade obsessiva. Ou então é um competente e disciplinado agente capaz de transformar o mundo físico em nosso benefício. De fato, o que seríamos sem eles? Provavelmente, um bando de bípedes sem penas caçando com lanças primitivas.

3. O que é um fato científico, pensando, particularmente, nas ciências humanas? O que pode ser passível de ser explicado, convertido no jargão científico? Há quem diga que um fato científico surge de algum desfuncionamento: o que não funciona conforme o planejado deve ser reparado. O amor se torna um fato científico quando se revela uma esfera problemática para os animais humanos; o trabalho, idem. O mesmo para a saúde, a educação, o lazer. Metemos o nosso nariz científico em como as pessoas jogam futebol, como elas fazem sexo, como elas dormem, como elas comem, como elas lidam com as perdas, com seus medos, com esquisitices….enfim, tudo.

4. Mas não é só o Lattes que anima a transformação compulsiva-obsessiva de tudo em fatos científicos. É a falta de criatividade, a dificuldade de um pensamento autônomo, em suma, falta da capacidade de ser adulto, de debater as coisas entre adultos, e de resolvê-las. Mas, não: é preciso passar pelo crivo científico, pelas normas da APA, da ABNT-2, dos objetivos claros e “focados”; é preciso passar pela crítica de que você não respeitou as regras básicas do método científico. Patético, pois, enquanto isso, o mundo gira em sua órbita indiferente. Pior: o mundo humano parece pouco se importar com o que se produz nas ciências humanas. Tem-se ali forças muito mais poderosas de explicação, enraizadas profundamente em hábitos, cultura, pressupostos. E não adianta, defensivamente, dizermos que “são ingênuos”. Santo Deus – qualquer pessoa, em universidades brasileiras, sente na pele o que, de fato, é ingenuidade.

5. Às vezes, dá vonta de dizer: que cada um viva sua vida e faça dela o que quiser; não precisam DESSA [ambiguo, certo?] ciência para lhes dizer o que fazer.

6. Vamos admitir um possível “fato”: que nós precisamos inventar fatos para moermos, na máquina científica, dissertações e teses. Veja bem: não quero dizer que fazer isso é coisa de não-adulto; há valor nisso, mas é preciso procurar com lupa. Portanto, talvez parecendo autoritário, concordo com decisões de um terceiro (o Estado) sobre quais áreas são ou não “prioritárias” para se investir dinheiro. O investimento deste último está, claro, sujeito a humores políticos, bem como podem induzir pesquisadores a construirem a “indústria da pobreza” ou algo similar só para conseguir recursos públicos, ostentar seu status de “pesquisador do Cnpq”, etc. Mas precisamos de algum critério de valor que nos ajude a decidir, pela esfera pública, o que é desfuncional e merece um escrutínio, sério, científico.

Máquina de moer carne

Como enganar um aluno que quer ser enganado? É fácil. Basta ir dando nota para ele, sem que ele produza o que deveria produzir. Um dia ele recebe uma nota porque é “esforçado”. Outro dia ele recebe uma nota porque “fez todos os trabalhos”. Recebe nota, também, porque é “boa praça”. Tem nota porque “é bolsista” e, se assim acontece, algum outro professor é responsável por ele. Ah, sim, merece uma nota que é acima da média, afinal, cinco é muito baixo. Mas, concretamente, pelo mérito intelectual de ter mostrado que saiu de um comportamento errado para um comportamento correto, segundo uma expectativa objetivamente estipulada, isso não – por essa razão específica, nunca teve nota. E eis que, ao final do curso de graduação, faz-se com ele o que já se vinha fazendo desde os primeiros anos escolares: dá-se um empurrão. Cria-se um ingênuo que se imagina competente. Afinal, sempre passou com alguma nota razoável e, ao fim e ao cabo, se formou numa universidade pública, mesmo não sendo um aluno rico. Viva! Eis aí o monstro.

Esse monstro não sabe que não é capaz. Pois, de certo modo, ele não sabe o que é saber e não saber algo. Mas ele também não sabe que o nosso sistema educacional já conseguiu formar algum doutor descuidado, que vai acabar recebendo-o em algum mestrado. Por fim, do mesmo modo que foi empurrado na graduação, chega para a defesa do doutorado, com mão de gato no trabalho, aqui e ali, mas chega. E eis que é doutor. Um concurso feito pelo próprio orientador ou por um amigo deste e … pimba! Lá está o monstro criado pela máquina de degeneração cerebral agora transformado na carne de segunda chamada, atualmente, de professor universitário.

Fonte

Psicologia e trabalho

Acaba de sair um artigo em que discuto algumas formas de “apropriação” do trabalho pela psicologia. Ou seja, coloco em perspectiva três abordagens ao trabalho: a organizacional, a social e a clínica, problematizando suas semelhanças e diferenças.

O artigo, publicado pela revista Psicologia & Sociedade, pode ser acessado abaixo.