Novo número da rPOT

Acaba de ser publicado o novo número da rPOT, revista de Psicologia Organizacional e do Trabalho (Qualis B1) da qual sou Editor-chefe. O número está bem interessante, e recomendo também a leitura do editorial. Espero que gostem!

Sumário
Rev. Psicol., Organ. Trab. vol.15 no.2 Brasília jun. 2015

 Editorial
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Redes sociais e o vínculo com a organização: como a estrutura das relações explica o comprometimento, o entrincheiramento e o consentimento
Macambira, Magno OliveiraBastos, Antônio Virgílio BittencourtRossoni, Luciano

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A determinação do empenhamento organizacional e do bem-estar no trabalho sobre o bem-estar subjetivo
Santos, Joana Vieira dosGonçalves, Gabriela

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Psicodinâmica do estresse: estudo com trabalhadores de pesquisa, desenvolvimento e inovação
Nogueira, José Henrique VilchesFreitas, Lêda Gonçalves de

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Desemprego, autoestima e satisfação com a vida: estudo exploratório realizado em Portugal com beneficiários do Rendimento Social de Inserção
Barros, Rita ManuelaMoreira, Ana Sofia

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Significado do trabalho voluntário empresarial
Silva, Grasiane Cristina daKemp, Valéria HeloisaCarvalho-Freitas, Maria NivaldaBrighenti, Carla Regina Guimarães

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Autoeficácia no uso do computador em situações de aprendizagem: uma análise da literatura internacional
Guimarães, Vanessa da FonsecaAbbad, Gardênia da Silva

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Evasão e persistência em ações educacionais a distância: análise do perfil discente
Umekawa, Elienay Eiko RodriguesZerbini, Thaís

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O trabalho da gestão: notas sobre poder e subjetividade
Moro, Cibele Vargas MachadoAmador, Fernanda Spanier

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Reflexões psicanalíticas sobre a resistência à mudança organizacional
Garrido, GiovannaSaltorato, PatríciaMoreira, Carlos Augusto Amaral

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Lançamento

Nesta semana, finalmente foi concluída a produção do Dicionário de Psicologia do Trabalho e das Organizações, uma obra em que Jairo e eu estivemos envolvidos desde 2010. Acho que será uma importante contribuição para área da POT em nosso país.

Os interessados podem adquirir, por enquanto, clicando na figura abaixo.

Ser professor

Reproduzo, integralmente, a última coluna de Thomaz Wood na Carta Capital, intitulada de A crise do giz. Voltarei a ela no próximo post que dedicarei ao assunto.

Laurentius_de_Voltolina_001

Um quadro do século XIV, pintado por Laurentius de Voltolina, mostra uma aula em Bolonha. Do lado esquerdo, sentado em um púlpito elevado, vê-se o pomposo professor. À sua frente e à sua lateral, em fileiras de carteiras fixas, encontram-se pouco mais de 20 estudantes. Apenas quatro ou cinco deles parecem escutar atentamente o mestre, alguns miram seus cadernos, outros conversam e dois parecem dormitar.

Séculos depois, a cena das salas de aula não parece ter mudado. O visitante que entrar hoje, ao acaso, em uma sala de aula, vai provavelmente se deparar com cena similar. O mestre talvez seja mais jovial e comunicativo do que aquele do quadro de Voltolina. Entretanto, à sua frente, estarão os mesmos estudantes entediados. Poucos estarão atentos à cena, muitos outros estarão mergulhados em notebooks e smartphones, alguns, provavelmente, estarão cochilando.

A escola permanece, para muitos, um lugar de enfado e tédio, ou o sacrifício a fazer por um diploma. O dramaturgo britânico George Bernard Shaw deixou para a posteridade, entre outras tantas pérolas, o registro de que os únicos momentos nos quais sua educação foi interrompida foram aqueles em que estava na escola. O “educador futurista” David Thornburg declarou recentemente em uma entrevista para a revista The Atlantic que, de todos os lugares de sua infância, a escola era o mais depressivo.

Séculos preservaram a essência da instituição. Décadas recentes de desenvolvimento pedagógico não lhe alteraram as feições e os últimos anos de revolução tecnológica parecem ainda não ter surtido efeito. O quadro-negro deu lugar à tela. O computador substituiu o giz. Agora a febre são as aulas em vídeo no YouTube. No entanto, são as mesmas aulas de sempre, ou versões pioradas.

Nos últimos anos, as aulas expositivas parecem ter se transformado em vilão e alvo preferencial de críticos. Buscam-se novas dinâmicas e métodos. Será esse realmente o melhor caminho? Algumas aulas produzem efeito narcótico, mas decretar o fim do modelo talvez seja prematuro. Richard Gunderman, professor de Medicina da Universidade de Indiana, escrevendo para a The Atlantic, observa que há boas e más aulas. Gunderman argumenta que a presença física do professor faz diferença: bons professores são capazes de despertar a imaginação dos pupilos e inspirá-los. Preparar uma boa aula é uma arte, requer esforço e muitas horas de prática.

Hoje, a informação está disponível nos mais diversos meios. O objetivo da aula é contagiar os estudantes: contar uma história com começo, meio e fim, transmitir o entusiasmo do mestre pelo assunto e tornar os pupilos seus “cúmplices”. Uma boa aula não é uma repetição mecânica de ­teorias e modelos. É um processo interativo, no qual ator e audiência interagem e, eventualmente, trocam de papéis. “O bom professor abre os olhos dos aprendizes para novas questões, conexões e perspectivas que eles não consideraram antes, iluminando novas possibilidades para trabalhar e viver”, argumenta Gunderman.

Em Monsieur Lazhar, filme canadense de 2011, dirigido por Philippe Falardeau, Bashir Lazhar é um argelino refugiado em Montreal. Ávido por um emprego, ele oferece seus serviços a uma escola fundamental, escondendo a falta de experiência como professor. Ansiosos por substituir uma professora que cometera suicídio na escola, traumatizando seus pupilos, a diretora contrata Bashir. Seus métodos tradicionais incluem ditados, leituras clássicas francesas e a reversão do arranjo de mesas e cadeiras ao antiquado modelo de fileiras paralelas. Entretanto, à medida que a história evolui, a relação com os estudantes se desenvolve positivamente e Bashir os ajuda a enfrentar o trauma da perda de sua antiga professora, enquanto supera suas próprias perdas.

Ensinar e aprender trata-se de um processo relacional que vai além dos métodos e das tecnologias. Diz essencialmente respeito a relações humanas. Não é entretenimento ou diversão. Tampouco é sofrimento. Envolve escutar, avaliar, refletir e praticar. Pode ser penoso, às vezes, mas deve sempre recompensar estudantes e professores. Pode usar novos métodos e novas tecnologias, mas depende essencialmente da construção de um palco para a interação coletiva

Para os interessados em clínicas do trabalho, em particular, neste caso, na psicodinâmica do trabalho, recomendo o vídeo abaixo, derivado de uma conferência com a professora Ana Magnólia Mendes, professora de psicologia da UnB e uma das mais conhecidas divulgadoras dessa abordagem no Brasil.

Professor, pesquisador, profissional

Será que ser pesquisador de psicologia equivale a ser professor de psicologia? E quanto a ser um profissional de psicologia? Acredito que não sejam as mesmas coisas. Correspondem, as três, a papéis distintos, com impactos diferenciados em termos de aprendizagem.

O pesquisador olha para um fenômeno e se pergunta: por que ele ocorre? Quais forças o determinam? Como pensar em sua evolução/desenvolvimento ao longo do tempo? Para tudo isso, deve colocar tal fenômeno contra o pano de fundo de uma teoria, e, com esta, fazer uma opção pelo seu entendimento do real. A pesquisa é lenta, segue um ritual próprio.

O professor, em seu turno, é um transmissor do saber estabelecido. Não significa, como alguns pensam, que apenas reproduz, repete. Pode até acontecer, mas, efetivamente, não precisa ser assim. Quem já deu aula e levou esta atividade a sério sabe que é, sim, possível produzir conhecimento à medida que se fala sobre um assunto, que se interage com o aluno. Uma aula bem dada, num bom entrosamento aluno-professor, permite grande aprendizado – ainda mais para o professor, um ser cuja ação é, sobretudo (nas humanas), linguística.

E o profissional? Este deve lidar com problemas práticos, determinados por diversas forças: econômicas, políticas, institucionais, pessoais, interpessoais. A realidade se apresenta ao profissional como um caos relativamente organizado, mas, ainda assim, problemático. O profissional muitas vezes não tem tempo para “rever a literatura” para saber o que outros fizeram ou recomendam que se faça para o melhor resultado. Profissionais atuam no âmbito do cotidiano, e este é totalmente indiferente a matrizes teóricas, epistemológicas, etc.

Para mim, há um salto imenso do pesquisador para o profissional. Em ciências humanas, dizer que a pesquisa “sustenta” a prática do profissional é, no contexto brasileiro, uma ignorância. Uma inverdade. Ao mesmo tempo, poucos profissionais realmente pensam suas práticas; poucos têm o espírito e a disposição para ver a realidade e suas “demandas” com o olhar de quem hesita (diante do saber). A difusão da pesquisa para a prática é, institucionalmente falando, uma piada. Não é à toa que universidades se fecham em si mesmas.

Uma saída é o pesquisador vivenciar outros papéis – de parceiro do profissional, por exemplo – mesmo com as dificuldades acima apontadas. Há riscos: o pesquisador-consultor; o pesquisad0r-palestrante; o pesquisador-vedete. Seja com for, há necessidade de outras competências: um ótimo pesquisador, entre quatro paredes de uma sala de aula de pós-graduação, se reduz a pó quando não consegue articular capital (humano, social, político, etc.).

Da pesquisa à ação: única via?

No Brasil, é fato que as universidade federais e estaduais, em suma, públicas, são os principais atores a investir na pesquisa. As empresas o fazem pouco, se é que o fazem.

Ao mesmo tempo, é também crítico o distanciamento entre pesquisa e ação. Hordas de estudantes vivem a levantar a voz contra a universidade, pois estas “focam demais” na pesquisa. Desinvestem do ensino, fazem pouco caso da prática.

“Prática” é uma das palavras mais ambiguas que existe. Depende muito da interpretação. Para uns, refere-se às “demandas do mercado”; para outros, à ação propriamente dita, implicada em cada nicho profissional.

Ora, pesquisa, em algumas áreas, tem conexão imediata com a prática. Por exemplo, pesquisa básica pode, com o tempo, gerar subsídio para o desenvolvimento de novas tecnologias com impacto na vida cotidiana.

Mas o que dizer das “ciências humanas”, onde incluímos a psicologia?

Na psicologia, a coisa parece mais complicada, pois nem sempre se vê o “nexo causal” entre pesquisa e prática. Esta segue lógica distinta da lógica da pesquisa: a prática acontece; a pesquisa é (quase) sempre uma rememoração da prática passada.

O aluno, quando está em estágio, se angustia porque a pesquisa parece pouco lhe assistir diante de demandas concretas. Muitas vezes, é ao senso comum, ao “bom senso”, que acaba tendo de recorrer. O senso comum/bom senso reage rápido; resolve (ou faz de conta).

Em tese, a ação do psicólogo profissional (e de outros) deve se basear em evidência. Deve levar em conta o conhecimento disponível, que propõe conexões entre fenômenos. Assim, se um professor tem um aluno que “não aprende”, um laudo psicológico é, frequentemente, demandado. Com o laudo, que se faz com base em “ciência”, o psicólogo profissional saberá instruir seu “cliente” (o professor, por exemplo).

Na prática, as coisas não funcionam assim. Na prática, a interpretação da ação recorre a outras fontes, principalmente a fontes tácitas, decorrente de internalização de saberes psicológicos (no exemplo, sobre o processo de ensino-aprendizagem). Em cada interpretação, um projeto de ação se configura.

Na prática, o conhecimento não nos assiste integralmente. Precisamos nos arriscar: arriscar a nos colocar como “agentes”, como elemento terciário nas relações (educacionais, profissionais, de saúde, etc.).

No fundo, as coisas elementares são, como sempre, simples: tudo pode ser reduzido a “acontecimentos”,  a circunlóquios diante do “real” (sempre se nota tal “real” quando estamos diante de problemas ou desencaixes práticos). Como vamos “lidar” com tais acontecimento, eis aí outra questão.

No fundo, nossa vida cotidiana, as entranhas do funcionamento de nossas instituições, é baseada na premissa de uma racionalidade mínima, enchuta. Porém, ela é frágil, delicada, limitada. No fundo, giramos todos em volta de tentativas, discursos, falas, interpretações. Não há, a desgosto dos obsessivos, nada a garantir uma conexão essencial entre fatos, entre “práticas”.

Sistemas peritos são, como dizia Giddens, assentados na base de profunda confiança, uma confiança ontológica. Mas eles nos desapontam. Mesmo a pesquisa, mesmo ela não é uma única (ou privilegiada) forma de regulação/organização do real.

Quem vai dizer isso a nossos pesquisadores?

Crowdfunding científico

Tempos atrás noticiei aqui sobre a prática do crowdfunding para promoção de eventos culturais. Agora, ela chegou à ciência. Em uma interessante matéria do blog de ciência da Revista Piauí, Bernardo Esteves mostra como, mesmo aqui no Brasil, a prática se insinua. É como se fosse uma espécie de CNPQ pulverizado, cada um de nós ocupando o lugar de nano-investidores a fundo perdido de projetos cujo interesse depende, penso eu, da capacidade de “venda” de seus propositores (veja dois vídeos disponíveis na matéria).

É mais ou menos assim. Eu, que atualmente pesquiso empreendedorismo nas indústrias criativas, faria um vídeo no qual apresento as vantagens de alguém investir na minha pesquisa, como citação do nome em produtos de divulgação (imagine: no artigo fruto da pesquisa, uma nota de rodapé listaria todos os “patrocinadores” da pesquisa, em vez do CNPQ, CAPES ou FAPEs estaduais…). A idéia é interessante, pois, se pararmos para pensar, o dinheiro de agências de fomento provém, em sua totalidade, do governo – que, obviamente, o obtém junto à sociedade. Portanto, em vez de delegar a um ou outro órgão a decisão sobre o “onde” investir (geralmente, tais órgãos mencionam questão de “interesse nacional”…), o próprio “contribuinte” pode decidir onde investir. Claro que isto traz riscos, por exemplo, como controlar/monitorar o destino do dinheiro? Superada essa dúvida “prática”, a iniciativa é interessante, e põe em evidência uma questão central, concernente aos propósitos e aos interesses de se realizarem determinadas pesquisas. Dá o que pensar.

O Lattes e a saúde

Trechos da coluna de Thomaz Wood Jr. na Carta Capital de janeiro. O tema: os efeitos da produtividade acadêmica sobre a saúde dos docentes.

Uma pesquisa publicada recentemente por Otacilio Antunes Santana, do Centro de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Pernambuco, explora outra dimensão preocupante da mesma questão: o efeito das condições de trabalho sobre a saúde dos docentes de pós-graduação.

Seu ponto de partida foi a constatação do aumento de pedidos de licenças médicas, principalmente aquelas relacionadas a sintomas ou consequências de doenças cardiovasculares.

Santana analisou dados de 540 professores de seis faixas etárias, entre 36 e 65 anos. Suas conclusões fazem eco a um debate emergente na academia brasileira, acerca da pressão por produção científica e pela formação de mestres e doutores.

A pesquisa comprovou que, quanto maior o número de publicações científicas e o número de orientandos, maior o número de intervenções cardíacas, doenças coronárias e acidentes vasculares cerebrais. Em suma, trabalhar nessas condições faz mal.

O quadro é agravado, segundo Santana, pela falta de dieta equilibrada, de atividades físicas e acompanhamento médico -regular dos docentes.

Nas mais diversas latitudes e longitudes, o modelo tradicional de universidade está sendo criticado. Acelerar a linha de montagem e produzir mais mestres, doutores e artigos científicos é uma resposta simples para o desafio que se coloca, mas parece estar matando os operários e prejudicando a qualidade da produção.

Pode ser mais um marco da passagem da era da elite bem pensante para a da pesquisa burocrática, conduzida por operários do conhecimento, uma etapa que talvez ainda resulte em ciência, mas por enquanto apenas mascara um sistema caro, improdutivo e insalubre.

Fonte