Ausência: um duplo sentido

É como se eu tivesse aprendido ontem que existe a perda e o luto. Como se isso fosse alguma coisa que, de repente, não fizesse parte do ser vivo, mas de um despertar tardio de minha consciência. A natureza, suas regras, suas contingências nasceram ontem, e deve ser por isso que nunca me dei conta de que se vive e se morre.

Freud dizia que o inconsciente não conhece a morte, não sabe nada sobre o tempo. A morte não tem lugar no inconsciente, e então deve ser por isso que nos comportamos como se nunca houvesse a perda, o fim. Nem o nosso, nem talvez o dos outros.

Quanto mais inflado nosso eu, mais auto-rotacionados nossos pensamentos, mais ego-centradas nossas preocupações, aspirações, medos, desejos, parece que menos somos capazes de perceber a morte. Narcisismo e morte. Aí, quando ela ocorre, nos sentimos como se fôssemos um convidado que chega muito atrasado em uma festa, arrependido do que perdeu.

Mas é paradoxal. Pois ao mesmo tempo em que a inflação do eu nos desvia da atenção ao outro, esse outro está desde sempre ali. Explico: quando um ente está a nosso redor, por mais que não lhe dediquemos muita atenção, sua falta denuncia que ele ali estava, à disposição, à-mão (como em algum lugar, sobre outra coisa, falou alguma vez Heidegger). Ausência na presença.

Mas existe presença na ausência? Num primeiro estágio do luto, provavelmente não. Quando estamos em luto, a “presença ausente” do ente desaparecido revela que o ente não está mais à-mão, não está mais ali. Essa ausência nos mostra que, no fundo, a presença subentendida do ente, quando vivo, nos era importante, por vezes vital. Mas não conseguimos, na plenitude, nos dar conta disso no momento em que poderíamos – parece que só o fazemos depois, quando já não há volta. Daí vem a culpa.

A morte de um ente altera nossa percepção, fazendo-nos realçar as características positivas do ente morto. Por que fazemos isso? Vou falar por mim, pelo que sinto. Porque o ente era importante, para alguma coisa ele era importante, senão essencial. Mas, no cotidiano da convivência, no cotidiano da “ausência na presença”, não nos damos conta, pois estamos muitas vezes às voltas com nosso próprio eu e seu cinturão de objetos, dejetos, todos eles circulando ao redor da gravidade egóica. Mas lá estava o ente, à-mão, à-disposição. Com a morte, não mais. Nesse sentido, a morte do ente tem relação direta com o narcisismo. Uma culpa narcísica. E não uma culpa relacionada à perda do objeto de amor (e a consequente necessidade de reorganizar os investimentos egóicos).

Winnicott tem um texto genial, “A incapacidade de ficar só”. Porém, como quase tudo nesse autor, a interpretação não é a que logo nos ocorre, de que uma pessoa (no caso, ele falava de crianças) não consegue ficar sozinha. E pronto. É isso, mas é também outra coisa: a criança, em seu processo de maturação, vai progressivamente aprendendo a ficar só – porém, na presença da mãe. Isto é, na presença de um outro que protege, ou que meramente ali está, na “presença ausente”. A criança fica entretida com alguma coisa enquanto a mãe está ali perto, passando roupa por exemplo. Com o tempo, a mãe vai se transformando em outra coisa, em outras pessoas, em outros objetos, outros entes.

Nesse post, usei a palavra “ente”. Sabe por que estou falando assim? Por que, se você leu meu post anterior, sabe de que perda estou falando. Essa perda, entre outras coisas, me fez ver a relação que mantemos com entes, não necessariamente pessoas. Aliás, entes não-humanos, quando a eles nos apegamos e daí os perdemos, dizem talvez muito mais sobre nós, nossos investimentos e dinâmicas egóicas, do que nossas relações com entes humanos. Em termos históricos, esses entes saíram de uma posição indiferenciada (“objetos” da natureza) e se tornaram “seres” para os “seres humanos”. Mas se tornaram seres como coisas à-mão. A relação que humanos com eles estabelecem mostra, talvez, apenas um capítulo dos mecanismos e processos mais amplos de vínculo e apego. Ou podem mostrar novas dinâmicas subjetivas, relacionadas à perda.

Encerro: quando choramos a perda de um ente, pode ser porque choremos aquela parte nossa que morreu com o ente. Ou podemos chorar aquela parte que gostaríamos de ter explorado melhor, ou seja, choramos pelas possibilidades não realizadas. Podemos chorar pelo abandono do ente em relação a nós, como se, para começar, esse ente tivesse vindo ao mundo por causa de nós! Ou podemos chorar por uma coisa bem mais profunda: podemos chorar pelo vazio, pela escuridão, pelo non-sense de que, no fundo, é constituída nossa vida. Podemos chorar de angústia, não de culpa. Então, é nisto que acredito: hoje eu choro pelo vazio.


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