Atávicos

Vejamos alguns paradoxos do ser humano a respeito da liderança. Algo que você talvez não vá encontrar em algum manual (fake, como quase tudo que fracos escrevem para fracos) de liderança.

Atávicos

1) Algum grupo irá respeitar seu “líder” se ele revelar-se fraco, se ele expor a raiz dos problemas que ele, no seu íntimo, sabe que está enfrentando? Não. Se um líder expor as minúcias das várias alternativas possíveis, dos dilemas imanentes às decisões e das situações conflituosas em que geral se vê envolvido como líder, ele não será compreendido. Será visto como um fraco.

2) Se um líder pede feedback, ele se enfraquece. Ele delega ao outro, que, no seu íntimo, é também um fraco, na verdade, um covarde às sombras do líder (alguém a quem ele pode culpar caso algo saia errado, tamanha a alienação de seu próprio desejo, sua incapacidade de correr riscos e errar por si). O líder lidera quando gera no seu liderado a sensação de que ele, liderado, está em dívida. A liderança está do lado de quem gera a dúvida, e não de quem é duvidado.

3) A distância, certo “segredo”, certa incógnita, certo ar de incerteza, isso tudo fomenta a liderança. O “semblante de saber”, a suposição de que se sabe, mesmo quando não se sabe absolutamente nada, é um manancial da liderança. Achamos pessoas afetivas fracas (a afetividade implica alguma transparência, algum nivelamento, alguma mensagem de que o líder é um “igual”, sofre como, os outros…); tendemos, atavicamente, a admirar, a nos submeter, a nos curvar (sem admitir) perante tudo o que se aproxima, minimamente, da soberania.

Tudo isso que estou dizendo parece ser mais verdadeiro hoje do que talvez tenha sido no passado. Por alguns motivos. Primeiro, porque vivemos numa cultura da infantilidade, uma cultura bebezona, acovardalhada. Décadas de feminismo tornaram homens e mulheres muito mais frágeis, muito mais distantes de alguns dilemas inexpurgáveis da existência. Segundo, porque liderar tornou-se uma tarefa complexa, e a complexidade demanda risco, virilidade, aposta.

Se você não dobrar o outro, ele te dobra. Não há relação harmônica, não há nivelamento dos conflitos. Pensar isso é alienar-se a seu próprio poder. Líderes que vão ao fracasso, e que levam seus liderados ao fracasso: paradoxalmente, pelo seu instinto atávico, é a isso que se lança o ser humano comum. Todas as teorias de liderança que não reconhecem isso caem na vala comum do espírito acorvado de nossa época.

Mas, sabe o que é pior? O governo dos iguais. Sabe por quê? Porque ninguém é igual ao outro. No plano moral, até podemos ser iguais. Mas, no plano prático, da capacidade/potência sobre o mundo, somos bem diferentes, isto somos!

E nada mais ultrajante do que uma pessoa que sabe qual é seu desejo. O líder é alguém que deve, imperativamente, saber sobre seu desejo. Mesmo que se engane. Mas nada equivale ao poder de um sujeito desejante, a despeito de tudo, a despeito de todos. E repare o seguinte: quando você se sentir fraco perante alguém, isto é sinal de que o desejo desse alguém é mais visível e delineável que o seu. O desejo dele é tanto que ele deseja por você.

Oh, nossa humanidade… tão atávica, tão estúpida. Mas estamos ainda na Terra, não? O que isso revela, desse ponto de vista da liderança? Muito!