A partida

Ordenei que tirassem meu cavalo da estrebaria. O criado não me entendeu. Fui pessoalmente à estrebaria, selei o cavalo e montei-o. Ouvi soar à distância uma trompa, perguntei-lhe o que aquilo significava. Ele não sabia de nada e não havia escutado nada. Perto do portão ele me deteve e perguntou:
– Para onde cavalga, senhor?
– Não sei direito – eu disse – só sei que é para fora daqui, fora daqui. Fora daqui sem parar: só assim posso atingir meu objetivo.
– Conhece então seu objetivo? – perguntou ele.
– Sim – respondi -. Eu já disse: “fora-daqui”, é esse o meu objetivo.
– O senhor não leva provisões – disse ele.
– Não preciso de nenhuma – disse eu -. A viagem é tão longa que tenho de morrer de fome se não receber nada no caminho. Nenhuma provisão pode me salvar. Por sorte esta viagem é realmente imensa.
F. Kafka, da tradução de M. Carone, Narrativas do espólio, Companhia das Letras (2002).